quarta-feira, 5 de junho de 2019

Insônia II

Desperto, desbrava a noite
Repousado sobre os lençóis
De apenas mais um dia comum
Numa luta que lhe consome
Senão o corpo, talvez a alma

Agarra-se à esperança
Aflige-se da invulnerabilidade
Que a noite contempla
Enquanto anseia pelo fechar dos olhos
Que jamais virá

Sente o clamor de suas entranhas
Mas não se vê capaz
De entregar-se tão vulneravelmente
Ao Tãnatos que à noite o espreita
Sem jamais tocá-lo

Busca, em vão, pelo homem de areia
Condenado a sonhar
Na vigília do pensamento
Sem que, na ternura da noite,
Se deleite no afago das plumas do adormecer

Como o morcego de Augusto dos Anjos
Que feio igual a um olho
Não há de se abater com qualquer ferrolho
Persistente, a consciência se mantém
Invadindo o quarto e o pensamento

Assim, por mais uma noite
Madrugada adentro
O corpo se desfalece
Mas resistem os olhos
Enquanto forte e imponente
Ela permanece

Dissonância Cognitiva

Olhar o passado
Vivenciar a amargura
Daquilo que nunca fui
Sentir falta do não vivido
Como se fosse assolado
Por uma grande perda
Do que jamais tive

Sonhos desfeitos pelo tempo
E também pelas más escolhas

Tempo, que agora nos cobra
Voraz, nos devora
Como se um piscar de olhos
Fosse suficiente
Para nos separar de nós mesmos
No desalento daquilo que poderia ser
Mas jamais será

De onde viria, porém, a sabedoria
Senão dos erros cometidos?

Comedidos? Nem um pouco
Na sede impulsiva
De uma juventude
Que jamais retornará
Um sonho perdido no passado
Apenas mais um entre tantos outros
Que um dia já deixei de sonhar

Mas não foram outrora os sonhos
Mais importantes que o porvir?

Sonhos de um coração inquieto
Que na ansiedade de satisfazer-se
Afogado na ilusão
De encontrar no passageiro
A eterna felicidade
Se fez cego diante das evidências
De uma escolha sem sentido

Mas onde haveria sentido
Que não na paixão de um coração juvenil?

Ora, de que valem as escolhas
Se não para afagar
A necessidade de se aventurar
Pelo infinito desconhecido?
O sentido da vida está na jornada
No propósito que a ela se dá
Ao encontrar a si mesmo no entrelaçar do tempo

Será o tempo, contudo, capaz de unir
As duas pontas da vida?

Até que chegue o momento
Quantos serão os sonhos
Sonhados em vão?
Estaremos nós abandonados
A mercê de um futuro
Que nos devora
Na incerteza do amanhã?

Uma única certeza nos acompanha
Desde o sacro ventre até o seio da terra
O tempo chegará
E, implacável, consumirá
Os sonhos
As incertezas
E a nós mesmos




terça-feira, 4 de junho de 2019

~Son(h)os Assimétricos

Sonho
Que se sonha
Em sono:
É sonho

Sonho
Que se sonha
Sem sono:
Insônia


quarta-feira, 29 de maio de 2019

Despedida

Sem qualquer aviso e sem sinal
Veio como um golpe fulminante
Tão brevemente como um instante
O que era eterno se fez final

Numa forma tão vil e brutal
O que parecia tão distante
Logo transmutou-se em lancinante
Sofrimento nunca visto igual

De tua presença a despedida
Na insensível realidade
Da qual não se encontra uma saída

Degladio-me com a verdade
Não aceito, de tua partida,
Viver somente em saudade

Saudades

Vil é o tempo
Que impiedoso nos impõe a finitude
Do humano a vicissitude
"Do pó ao pó"

Ilusão do que outrora eterno
Num instante se fez efêmero
O existir na falta
Do temor à realidade

Conotativo manto
Do mítico ceifeiro
Encobre o que se sempre se fez presença
E agora sobrevive na lembrança

Das incertezas de um sono eterno,
Prometida salvação ou um mero não ser
Ampara-me a vã esperança
De estar fadado à sorte
De quem, por toda a vida,
Esteve errado sobre a morte

Vista Cansada

Com um olhar distante e profundo
Seus olhos fitavam o mundo
Suas pálpebras caídas
Carregando o peso da tristeza
De uma vida mal vivida
Adornadas pelas rugas
Que não eram muitas nem poucas
Mas que escreviam uma história única
De seus sessenta e poucos anos

No canto da boca, um sorriso amarelo
Buscando disfarçar sem sucesso
Uma esperança vazia
De viver, quem sabe,
Algum outro dia

sábado, 26 de agosto de 2017

Pensamentos

Efêmeros,
Não duram mais
Do que um único instante.
Se eu posso dizer,
Não mais existem no presente.
São constantes do passado
Que nos guiam no futuro
E nos identificam no agora.
Se apoiados na memória,
Eu existo.
Se esvaziados de lembrança,
Não me resta vida.
Um acerto de Descartes:
"Eu penso, eu existo".
Porém, o existir em si mesmo
Só se faz possível
Se constituídos de história.
A vida não se define no corpo;
Tão pouco naquilo que chamam 'alma'.
É possível estar morto sem perecer.
Morre-se ao se perder de si mesmo.
Morrer é sucumbir a consciência
Ao tormento do esquecimento.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Insônia




Mergulhada na noite, jaz
estampada, com os mais
grosseiros traços,
a imagem feita à semelhança do poeta.

Mas se tanto se assemelha,
o mesmo tanto se difere.

Seria a alma? O desejo?
O que não se pode ser?
Ou o que não se pode dizer?

A resposta, quem sabe,
Transvestida em rabiscos...
Ou no sono que não vem.

Mas se a chamam de arte, talvez alguns;
Outros muitos de porcaria.
Há os que diriam sublimação.
Eu prefiro chamar "Insônia"...

domingo, 25 de dezembro de 2011

Não Ser

Mirado no exacerbo das rimas
Dos grandes poetas,
Vi meu lírico eu
Surdo,
Cego,
Silente...
Entregue à sorte.
Fadado à morte.
Incapaz de perceber,
Encantar, ou mesmo contentar-se
Com a beleza dos brancos versos.

Queria-as...
– As rimas –
Ah, como queria-as!
Emparelhadas, interpoladas, alternadas...
Raras, ricas,
Pobres que fosse...
Não importaria.
Desde que, no fim,
Saciassem seus ouvidos
Com sua melodiosa homofonia.

Entretanto, como foge
Ao seu caçador
A mais astuta das presas,
Fugiam-lhe.
E a pena repousava esquecida,
No silêncio do poeta.
Mas seria poeta de fato
Se nem sequer rimar sabia?

Talvez, na sua imensa presunção,
Apenas preferia se chamar assim.

sábado, 11 de junho de 2011

Lógica do Amor Contemporâneo

Donde haveria de vir um sentimento
Se o corpo não mais que da razão se ocupa
E nada mais lhe preocupa
Que senão, da lógica, o argumento?

E assim, ainda que verdadeiro o antecedente
Implique uma verdade do consequente
Do raciocínio, a veemência:
Não se faz válida a inferência

O amor há de ser sempre
Uma falácia!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Positivismo

Já não me restam
Sequer resquícios
Daquilo que
Um dia foi meu vício
Já não me inspiram mais as musas
Não me deleitam as palavras de Vinicius

E guiado pela pureza
De uma razão exacerbada
Caminho para o destino
De quem já não sente nada

Extinguiu-se a poesia
Não existe mais lirismo
O poeta e o cientista
Separados por um abismo

sábado, 9 de abril de 2011

Eugênia de Brás

Doce e pueril
Os olhos tão lúcidos
Uma boca tão fresca
Um rosto de ninfa
Os lábios virgens de um beijo
Meu súbito encanto

Mas que num só passo se desfez
Da natureza, um escárnio
E meu cínico questionamento
"Por que bonita, se coxa?
Por que coxa, se bonita?"
Era manca a minha Vênus

domingo, 20 de março de 2011

Reparação

Como o deleite de um sonho que se realiza
Surgiu da última fagulha da esperança
O reencontro daquela face
Há muito fadada ao destino
De viver somente em lembrança

O pranto se fez riso
Olhos se fizeram cintilar
Um suspiro, um toque, uma lágrima...
Um beijo
Uma nova chance para amar

Traçado um novo destino
Em que o lamento se fez alegria
Reescrito em estrofes e versos
De uma tão bela poesia

Mas quando se fecham as páginas
Extingue-se a felicidade
De figuras, rimas ou métrica
Desveste-se a realidade

Aqueles olhos ainda vazios
Corpos que jamais se tocaram
Separados eternamente
Desde que a morte encontraram

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Premissas

...Se sou feliz, não sou poeta
Se não sou poeta, sou triste
Se sou triste, sou poeta
Se sou poeta, sou feliz...

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Selos

Primeiro eu gostaria de me desculpar com o Douglas e com a Arianne, que me indicaram os selos que serão aqui postados. Já faz um tempo que eles me indicaram os selos. Senti-me honrado de tê-los recebido, mas, como eu não estava produzindo nada e estava em épocas de provas, esperei para postá-los quando voltasse a produzir. Então, aqui vou eu. 
Vou colocar os selos pela ordem de recebimento.

Os dois primeiro selos eu recebido do Douglas, do excepcional Sangue e Solidão. Um blog excelente. A escrita dele é fascinante. Recomendo a todos que leiam. Irão se extasiar com a leitura. Muito obrigado!

I-


 Este selo traz como regra responder às seguintes questões:

1- Nome: Eduardo Cunha Vilela.
2- Uma música: Just Breathe - Pearl Jam.
3- Humor: Ansioso.
4- Uma cor: Vermelho (apesar de gostar muito de preto e branco, acho que o vermelho ainda é minha cor preferida).
5- Uma estação: Outono.
6- Como prefere viajar: Ônibus (acho mais seguro do que carro, apesar de demorar mais. Mas nunca viajei de avião).
7- Um seriado: Two and a half Men.
8- Frase ou palavra mais dita por você: Não aguento mais essa cidade, preciso ir embora logo.
9- O que achou do selo: Interessante.

II-


Este selo não apresenta nenhuma regra. Apenas pede que indique os blogs. As indicações estão no final da postagem.


III - Estes selos (do III ao V)) eu recebi da Arianne, autora do Epifania. A escrita dela é intensa, forte. Os textos são excelentes. Recomendo a todos. Muito obrigado pelos selos!






Regras: 
- Indicar para dez blogs (final da postagem)
- Dizer quatro atos (maneiras) de amor: Peço sinceras desculpas, mas não saberia dizer quatro maneiras de expressar um sentimento tão controverso quanto o amor. Ainda me pergunto se algum dia já fui realmente capaz de amar, se compreendo de fato o seu significado. Talvez um dia eu descubra e possa dizer a vocês.



IV- 


Regra: Dizer 10 coisas sobre mim.

1- Tenho muita dificuldade para falar de mim mesmo nesse tipo de brincadeira.
2- Eu estudo Psicologia.
3- Sou bastante impaciente.
4- É praticamente me dar um tiro no peito quando me pedem para explicar alguma coisa e desistem no meio da explicação dizendo: "Deixa pra lá, eu não entendo mesmo".
5- Eu adoro Biologia, principalmente a evolução - ainda mais a evolução humana.
6- Eu tinha vontade de voar, mas, como não posso, hei de me contentar com pular de paraquedas um dia e ficar 50 segundos em queda livre.
7- Eu sou tímido, embora não pareça.
8- Eu pratico artes marciais.
9- Sou viciado em cereal com leite.
10- Eu gosto do caos, daquilo que não se pode prever, que desafia as probabilidades.


V-


Sobre o selo (esse blog diz-nos tanto com tão pouco):
- Colocar o nome de quem ofereceu este selo: Arianne, autora do Epifania

- Responder a pergunta: O que tem em comum o amor e a simplicidade?
Ambos estão nas pequenas coisas, nos menores detalhes.

- Oferecer este selo a três pessoas ou mais (final da postagem)

Indicados aos Selos: (Farei uma única indicação de 15 blogs aos 5 selos. Porque se fosse para indicar cada vez dez blogs, eu ficaria apenas alternando um ou outro a cada selo e no final os indicados seriam esses 15)


Asas de Macaco, da Gabriela;
Motor Bombeante, da Raíssa;
Reminiscência, da Paju e da Joy;
Alada e Colorida, da Isabela;
Busíllis, da Kênnia
Things of the Soul, da Thalita;
Epifania, da Arianne;
Nova Perspectiva, da Gabriela;
Borboleta Inquieta, da Vanessa;




quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Sinto...

           As mãos dela tocaram as dele. Deslizaram sobre seu tronco, e aqueles delicados braços o envolveram. “Eu te amo”, disse a garota.
            Tinha a respiração forte e o pulsar do peito podia facilmente ser ouvido. Estava envolta em emoções e sentimentos; brilhavam os seus olhos. Mas essa era ela...
            Tão frio quanto uma estátua de mármore, ele sentia o corpo dela junto ao seu. Entretanto, resistia sem hesitar a quaisquer gestos ou afetos. Não trazia nada mais do que um olhar vazio, do que o desprezo. Esse era ele...
            Não houve resposta senão o silêncio.
            Os olhos dela, castanhos, suplicantes, derramavam a primeira lágrima. Afastou-se. Tomou as mãos dele para si e as apertou fortemente, como se quisesse dizer algo. Levantou os olhos, tristes e úmidos, e mirou os dele, vazios; azuis:
            - Eu te amo! Repetiu.
            Ele desviou o olhar e, por mais alguns instantes, permaneceu calado. Essa era sua única resposta: o silêncio.
            A frieza a maltratava mais do que a mais dura das palavras. Pouco tempo bastou até que a primeira lágrima se fizesse pranto.
            - Sinto muito... – disse o rapaz, findando o seu silêncio mortal.
            Para a garota, sentir muito não bastava. O rapaz, contudo, não tinha mais nada a oferecer. Permaneceu quieto, olhando-a, tentando, por mais de uma vez, sentir qualquer emoção que fosse. Mas foi em vão. Quem realmente sentia, era ela. Ele não sentia absolutamente nada.
            Ainda apertando fortemente as mãos dele, ela ajoelhou-se. Fitou-o com seus olhos vermelhos. Implorou. Ele não disse nada. Soltou suas mãos das dela, deixando-a lá, no chão, em prantos. Virou-se. De costas, sem nem mesmo olhá-la, ele disse:
            - Adeus!
            Partiu.
            Aquelas seriam suas últimas palavras. Não importava o que ela fizesse, não importavam as súplicas; era o fim.

domingo, 30 de janeiro de 2011

A Morte de um Poeta*

Penso,
Penso...
Procuro palavras,
Mas não encontro.
Sou agora um poeta calado.
E nada mais me resta senão o silêncio.
De que vale, contudo, um poeta silente, se sua dádiva são suas palavras?
Um poeta que perde palavras é como um homem que perde os sonhos, a razão de viver;
[é um poeta morto.


--
*O número de palavras de cada verso do texto segue uma série matemática, chamada de Série ou Número de Fibonacci.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Batidas Últimas

            Amanhecia. Ele já podia ver bem a cor branca do teto refletindo os primeiros raios de sol que penetravam as frestas da janela. Não pregara os olhos. Ouvira cada passo no corredor, cada chamado de emergência, cada prece, o incessante barulho de seu balão de oxigênio. Escutara cada ruído fraco da sua respiração, cada debilitado pulsar de seu peito. Eram assim todas as noites. Não havia mais volta. Ele sabia disso. Sempre soube. Desde o dia que o levaram pela primeira vez àquele hospital. Desde o dia que lhe entregaram a sua sentença.
            A morte, entretanto, nunca havia sido um problema. Bradava antigos cânticos, capítulos e versículos quando lhe perguntavam dela. Amparava-se em sua “inabalável” fé. Tinha a certeza de que a vida terrena nada era comparada à plenitude da eternidade. Ansiava por ela. Vivia por ela.
            Mas o que estava acontecendo? Por que começara a fraquejar? Por que sentia tanto medo? Por que aquilo que sempre lhe parecera uma recompensa agora lhe roubava o sono, lhe angustiava?
            Nas intermináveis noites em que suas únicas companhias eram seu travesseiro e seu balão de oxigênio, ele se lembrava de cada vez que fora com a família a um funeral. De cada morte que presenciara. De quantas vezes ouvira a costumeira frase: “Descansou”. A morte soava quase como uma dádiva! Diziam e, apesar dos olhares ainda tristes, se consolavam; chegavam a esboçar um leve sorriso nos cantos das bocas. “Foi melhor assim”; abraçavam, acompanhados dessas solidárias palavras, os parentes dos defuntos. Ele se acostumou com isso. Também as disse muitas vezes ao longo da vida; jamais hesitou.
            Todavia, se antes, aos seus olhos, a morte sempre parecera sedutora, até redentora, talvez; um estado sublime em que se poderia apreciar os verdadeiros deleites, agora o fim de cada dia lhe parecia uma tortura. Ele não queria mais descansar. Estava bem assim.
            A sua triste e amargurada vida lhe parecia, naquele momento, um mar de rosas. As dores eram a prova de que vivia. Todas as suas tragédias e tristezas tinham se tornado experiências. Os intermináveis dias se tornaram curtos. Cada segundo que passava era um passo adiante para seu próprio fim.
            Sua inabalável fé começara a ruir. Surgiram as dúvidas, os questionamentos, as incertezas: E se não houvesse um Deus? E se não houvesse nada além? Como poderiam ter tanta certeza? Quem poderia lhe garantir?
            Aquilo lhe consumia. Podia sentir em suas entranhas. Era o medo. Era a morte.
            Dia após dia, aumentavam-se as dores; aumentavam-se os sofrimentos. Mas a cada instante em que os sentia ele sorria. Sabia que poderiam ser os últimos. Então sentia-os com prazer; sentia-os com vida.
            Seus pensamentos e suas verdades haviam mudado. Como haviam mudado! Mas todo o resto permanecia igual. As angústias, as dúvidas, os medos, as noites insones só se intensificavam. O fim estava próximo; isso lhe matava ainda mais.
            Fora muito fácil ignorar a morte ou até mesmo idolatrá-la enquanto ela não havia lhe batido à porta.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Homenagem ao Malandro*

Cadê você, carioca?
O velho Francisco
Cheio de samba e amor
Que com açúcar e com afeto
Não fala de Maria apenas
Mas da morena de Angola
E das mulheres de Atenas

Cadê você, carioca?
O malandro
É tanta saudade
Do bom tempo
Da Banda
Do Nosso Bolero
O último blues

Cadê você, carioca?
Te queremos de volta ao samba
Com essa gente humilde
Imagina só
Nós todos juntos
Para umas e outras
Uma feijoada completa

Agora falando sério
De um tempo que passou
Só o que resta paratodos
São as cartas
Um chorinho
E um retrato em branco e preto

Mas apesar de você
Meu caro amigo
Andar meio sumido
Nós estamos aí
Nessa roda-viva
Até o fim

Deus lhe pague!

--
*Obs: esse textoesse texto, inclusive o título, foi construído em cima dos títulos das composições de um dos maiores músicos e compositores da MPB, Chico Buarque.

Arrependimento Em Rimas Pobres

Ele vai...
Não sabe aonde quer chegar
Não sabe onde vai terminar
Ele apenas vai...

Num destino que lhe persegue
Envolto eu seus medos
Sem ninguém pra confiar seus segredos
Mas ele segue

O tempo passa
Os sonhos perecem
As pessoas se esquecem
A vida passa

Tudo fica pra trás
O futuro vira passado
Está tudo acabado
Mas não é nada demais

Ele já não tem mais vontades
Já não tem mais idade
Já não tem mais verdade
Só o que resta... saudades

A vida é assim
Não adianta fugir
Não adianta fingir
Sempre chega a um fim

Selos



Recebi este selo da Kênnia, autora do Busílis, e da Amanda, autora do Mundo da Bebé. Ambos os blogs são excelentes. Acompanho sempre, apesar de estar um pouco desatualizado - fiquei um tempo sem internet e agora estou na reta final dos vestibulares. Mas recomendo a todos que leiam. Os textos são ótimos!
Obrigado pela indicação.

Agora, pelas regras, tenho que dizer dez coisas a meu respeito e fazer referência sobre a criação do blog, às postagens e às minhas inspirações; indicar quinze blogs aos prêmios e comunicar seus autores sobre a indicação do selo.

As dez coisas:

1 - Comecei esse blog em junho de 2010. Ele surgiu de uma brincadeira. Certa vez eu estava conversando com uma grande amiga ao telefone e ela disse que tinha sono e não conseguia dormir. Eu perguntei: "Você quer que eu conte uma história?". Lógico que na hora eu não consegui criar nada. Mas daí surgiu a ideia para "A Menina Que Não Tinha Nome" - que, aliás, tenho que terminar. Depois escrevi "O Garoto Que Não Sabia Amar" como presente a um amigo. Nasceu o Psicotizzando.

2 - Meus primeiros textos todos tinham as personagens principais como crianças. Isso se deve ao fato de estar influenciado por "O Mundo de Sofia" e "Alice No País Das Maravilhas". Esses textos são os que mais retratam meus sentimentos ou sentimentos vivenciados por pessoas próximas.

3 - O primeiro texto que escrevi sobre mim realmente no blog foi "O Menino e o Castelo". Eu tinha escrito uma pequena versão desse conto. Com um parágrafo apenas em 2007. Me lembrei dele e resolvi reestruturá-lo.

4 - Tem um texto que eu escrevi, "Asas do Tempo", do qual eu não gosto. Acho demasiadamente clichê. Sinto uma certa vergonha dele. Foi numa época de falta de inspiração.

5 - "Um Conto Alegre" foi escrito em resposta às pessoas que me cobravam que escreve textos alegres. Não consigo fazê-lo. Só consigo escrever em momentos de tristeza. Não combino muito com finais felizes.

6 - O primeiro texto que sai da formulazinha mágica de escrever com crianças como personagens principais é o "Do Mundo Como Ele É...", que escrevi depois de reler o Dom Casmurro.

7 - Meus primeiros poemas - ou quase isso - que são intitulados apenas com "..." eram apenas divagações de momentos de profunda tristeza. Eu os tinha postado numa comunidade que criei no orkut, da qual só eu participo - mas era essa mesmo a ideia, tanto que se chama "Sozinho no Lago". Foi, de certa forma, o embrião do blog.

8 - Durante um certo tempo eu tinha como parâmetro de comparação o meu poema "Anseios" e o meu conto "O Retrato", que segundo alguns amigos e antes de eu escrever o "Confissões de Um Pecador" (Poema) e o "Brincando de Machado Pt. I" (Conto), tinham sido os meus melhores textos. Apesar de o "A Morte Em Preto e Branco" ter recebido ótimas críticas.

9 - Dois textos bem singelos que eu fiz foram uns dos mais visitados do blog. Isso foi até engraçado. O "Sintonia" - diálogo curto que fiz como uma homenagem -  e o "José Feliz Humano" - proposta de uma brincadeira de uma comunidade do orkut.

10 - As minhas grandes influências na poesia são Vinicius de Moraes, Chico Buarque, mas - apesar de conhecer pouco - gosto também de Augusto dos Anjos. Na prosa a minha grande influência vem de Machado de Assis. As obras dele são simplesmente fantásticas. Contudo, eu sempre acabo sendo influenciado pelo que estou lendo. O "Transtorno de Conduta" começou à partir da leitura de "Entrevista Com o Vampiro" da Anne Rice.

Os quinze blogs:

Asas de Macaco, da Gabriela;
Motor Bombeante, da Raíssa;
Reminiscência, da Paju e da Joy;
Sangue e Solidão, do Douglas;
Alada e Colorida, da Isabela;
Live In Doubts, da Paloma;
Things of the Soul, da Thalita;
Solilóquios, da Karine;
Quase Diário, da Gabi;

São excelentes trabalhos. Recomendo.



segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Problemas Técnicos

Pessoal, peço desculpas pela não frequência nas postagens, mas a questão é que estou temporariamente sem poder acessar a internet de casa. Uso, às vezes, nas casas de amigos ou parentes para checar e-mails, etc. Tão logo eu consigo resolver os problemas com a conexão eu volto a postar.
Obrigado pela compreensão.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Selos

  


           Recebi este selo do Douglas, autor de um dos mais excelentes blogs que eu acompanho, o Sangue e Solídão. Fiquei honrado por ter recebido o selo, uma vez que veio de um dos bloggers dos quais eu mais admiro a escrita. E também da Isabela, autora do Alada e Colorida, que tem uma escrita excelente também. Agradeço!
        Aproveito e recomendo que leiam o Sangue e Solidão. Irão se deparar com uma escrita bela e profunda; os textos do Douglas são fantásticos! E também o Alada e Colorida. A escrita da Isabela tem um certo diferencial, seus textos em prosa tem um ar bastante poético. São belíssimos!

As regras do selo são:
1. Falar 10 coisas sobre mim;
2. Passar o selo para 10 blogs;
3. Avisar os blogs que ganharam o selo.

1. Eu sou fã de Machado de Assis (Ah, vá!);
2. Só consigo escrever quando estou triste, raramente me inspiro por outro motivo;
3. Sou estudante de Psicologia - essa ciência é minha vida;
4. Eu pratico artes marciais - sou viciado nisso; quando não treino eu me pego chutando o ar ou fazendo; movimentação de luta na frente do espelho; XD
5. Coleciono mangás;
6. Outro grande vício é cereal. (Sucrilhos, Snow Flakes, etc.)
7. Não bebo menos do que 2 L de Coca-Cola Zero por dia;
8. Não bebo bebidas alcoólicas e nem fumo;
9. Eu tenho muita dificuldade com essas brincadeiras de enumerar X coisas sobre mim;
10. Gosto do acaso e das coisas que desafiam as probabilidades.



10 blogs que indico para receber o selo:

1. Asas de Macaco, da Gabriela.
3. Motor Bombeante, da Raíssa.
5. Busilis, da Kênnia.
6. Psicologia Cognitiva, do meu ex-professor, Vinícius.
7. Quase Diário, da Gabriele.
8. Quem Se Importa, da Gi.
9.  Live in Doubts, da Paloma.
10. Reminiscência, da Paju.

São excelentes blogs, com trabalhos e temáticas diferentes. Recomendo todos eles. ^^

sábado, 18 de dezembro de 2010

Na Fórmula do Poetinha

Contemplar________________
Desejar___________________
Amar_____________________
Chorar____________________
Inspirar___________________
____________________Querer
____________________Ter
____________________Perder
____________________Sofrer
____________________Escrever

Beleza                         Tristeza
                  Samba 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Amor, Pseudo-Amor

Se teu penetrante olhar almejo?
Os teus olhos eu nem mesmo vejo
E esses teus lábios que me entorpecem?
Dos meus, nem mesmo o toque conhecem

Dos nossos corpos que se enlouquecem
Verdade é que eles se desconhecem
Só finjo te fazer um gracejo
Desejo-te sem sentir desejo

Mero fruto de ingenuidade
Sempre rende-nos boas risadas
Dos que acreditam sim ser verdade
Essa nossa paixão inventada


Mas eu jamais te iludo, não minto
É sincero esse amor que não sinto

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Versos Devolutos

Disse um grande poeta com razão
Que pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
Ou senão não se faz um samba não

De insolente falta de inspiração
Eu digo, essa é a causa com certeza
Já que despido de qualquer tristeza
Segue, do versador, o coração

Desvestido de todo o sentimento
Em seu desapego, sem seu amor
Sem medo de chorar, sem sofrimento.

Mas ainda que cause tanta dor
Eu prefiro o poético tormento
Do que tão insensível desamor

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Coração de Aticuruman

Quando fui lhe escrever esse poema, ele veio em partes. Fiz a primeira estrofe e lhe faltava a segunda. Fiz a segunda e faltava uma terceira. Fiz a terceira e pensei que lhe faltassem versos, mas enganei-me. Faltava-lhe um título; mas não um título qualquer. Um título que lhe descrevesse cada emoção, cada sentimento; que lhe descrevesse cada verso. Faltava-lhe então não apenas um título, faltava-lhe um coração. CORAÇÃO DE ATICURUMAN.


Deixaste verdes mares bravios
Partiste para as terras d'além mar
Onde, na solidão de solo luso
Vem saudades te encontrar

Carente de nativa terra tua
Frente à fria tela iluminada
Te privas da noite à luz da lua
Onde anseias pela pátria amada

Ainda que dissimules tal infelicidade
A tristeza o teu olhar exalta
A ti mesma tentas convencer, mas não esconde
Em teu coração sobra tanta falta

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

José Feliz Humano

José, feliz, humano
José, humano feliz
Feliz, José, por ser humano
Humano, José, por ser feliz

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Brincando de Machado Pt. III

            O bilhete dizia dezesseis horas, mas o sino não batera ainda as quinze e já estava eu pronto, angustiado, andando de um lado para o outro. Ainda me lembro, como se fosse hoje, daquela ânsia em vê-la, da minha inquietude – maldita seja! Mas não nos adiantemos; seria passar o carro na frente dos bois. Eu afrouxava e apertava novamente a gravata – devo tê-lo feito umas vinte vezes naquele intervalo –, olhava no espelho, penteava os bigodes, ajeitava o paletó; não adiantava muito, porém. Mesmo que eu repetidas vezes fizesse todo esse ritual, o relógio não parecia ser um bom amigo naquele momento; pouco mais do que vinte minutos haviam se passado.
            Se me visses ali, jamais me imaginarias um homem feito, graduado em renomada universidade de ciências contábeis. Verias, provavelmente, um garoto, que no auge da sua juventude, se apaixonara, vivendo seu primeiro amor. Ela não foi, claro, o primeiro amor que tive; fica sabendo, todavia, que eu me portava como tal.
            Talvez fosse melhor ir andando, pensei. Assim eu mataria o tempo e poderia, quem sabe, encontrar alguém no caminho e conversar um pouco; isso me distrairia dos ponteiros.
            O fiz. Saí de casa e fui, lentamente, caminhando até o cais e imaginando o tão esperado momento. Encontrei alguns conhecidos, trocamos algumas palavras, que provavelmente não te interessas em sabê-las, e nem eu em lembrá-las, se é que eu conseguiria fazê-lo, uma vez que em poucos segundos de prosa eu já me dispersava. Notei em alguns olhares desconfortáveis com minha falta de atenção, contudo, falar com eles não me era de grande importância.
            Faltava-me ainda um pouco de tempo até o encontro quando cheguei ao cais. Ainda que afoito, esperei. O que mais me restava fazer? Depois de algum tempo a vi. Caminhava lentamente, como se procurasse por mim. Observei-a por uns instantes antes de me aproximar. Fui até ela. Não me tinha visto ainda. Toquei com leveza seu ombro para que se virasse.
            – Receei que não viesses. – Disse-me quando virou para ver quem lhe tocara e me avistou. Então sorriu.
            – Hesitei por algumas vezes em fazê-lo. Temi que o bilhete não fosse teu, ou não fosse para mim.
            – Para quem mais haveria de ser? – Disse-me, ainda com sorriso nos lábios. – Isso não importa. Mas sim que vieste.
            Doces palavras. Ao ouvi-las, me fiz mais próximo de Anita e tomei suas mãos.
            – Não sabes como ansiei por esse encontro. Desde o dia que foste em casa levar o recado de teu pai que desejo encontrá-la.
            Sentiu-se bem em ouvir minhas palavras, demonstrou satisfação deveras. Confessou-me depois que há muito já me olhava com outros olhos. Quis dizer o mesmo a ela. Não pude, contudo. Sempre a vira como uma criança impertinente, que atrapalhava os assuntos quando eu, tentando tornar-me homem antes da hora, fingia entender os negócios de nossos pais. Mas agora os tempos eram outros, sua beleza e suas curvas me encantavam; se antes eu a tiver nas mãos, agora era ela quem me em suas próprias.
             Trocamos algumas palavras e carícias, nos declaramos, e por fim, num deleite, o tão sonhado beijo. Aproximou-se lentamente de mim e tocou, suavemente, os seus lábios nos meus. Senti-me atônito, nada mais pude fazer do que apreciar tão prazerosa sensação.
            – Tenho que ir agora. – Disse-me.
            Tentei impedi-la de fazê-lo, mas não pude. Havia dito ao pai que iria à feira e não se demoraria. Não podia ficar mais. Compreendi. Puxei-a para junto de mim novamente a fim de nos despedirmos. Tocou-me rosto com as mãos e falou-me:
            – Antes que eu me esqueça: não deves contar a ninguém sobre nosso encontro.
            – Por quê? - Indaguei.
            – Papai estava a arranjar-me um casamento por interesses políticos. Pode vexar-se. Dê-me tempo para convencê-lo de que não o farei. Logo estaremos juntos.
            Cheguei a mover os lábios a fim de contestá-la, dizer que tantos me consideravam um bom partido, seu pai não seria diferente, haveria era de contentar-se com a notícia. Antes, porém, que minha boca pudesse emitir qualquer palavra, calou-me com um beijo. Calar-me-ia e convencer-me-ia quantas vezes quisesse com aqueles lábios. Concordei. Ela partiu.  

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Selos.

Estou fazendo hoje o que eu deveria ter feito já há um certo tempo. Contudo, devido à necessidade de me dedicar aos estudos eu não tive como fazê-lo. A Gabriela, autora do blog ASAS DE MACACO (http://asasdemacaco.blogspot.com/), me indicou em seu post pelo Selo Blog Amigável.
Pela regra do "jogo", devo indicar mais dez blogs que eu acho que sejam dignos de selo e postar a foto do selo aqui ao lado se você for indicado.
Os blogs que indicarei a seguir são alguns dos que eu acompanho e acho as temáticas bastante interessantes.








Mais uma vez, obrigado, Gabriela! Sinto-me honrado por ter recebido o selo de você Sabes que aprecio sua escrita, sempre deixei claro. ^^

domingo, 5 de dezembro de 2010

Transtorno de Conduta pt. I

            Eu deveria me sentir culpado, ter remorso, ou qualquer tipo de arrependimento. Entretanto, não foi isso que aconteceu, muito pelo contrário, me sentia extasiado, até esboçava um sorriso nos lábios ao sentir aquele sangue quente escorrendo por entre meus dedos, ao ver aquele corpo desfalecer diante dos meus olhos, ainda suplicante. Sentia-me bem enquanto o via agonizar fazendo suas últimas preces – numa voz trêmula e aflita. Foi em vão. Antes que pudesse terminar de implorar por sua vida eu cravei a faca em seu peito; um golpe fatal.
            Com lágrimas no rosto e aquele olhar de desespero o corpo caiu diante dos meus pés. Lembro-me, como se fosse ontem. Uma cena que nem mesmo o tempo seria capaz de apagar.
            Jamais havia participado de um assalto. Nunca me deixavam ir junto. Diziam que eu ainda era novo demais para isso. Eu me detinha apenas a fazer alguns furtos; tinha que contribuir de alguma forma. Mas eles nunca me permitiam fazer nada que pudesse colocar minha vida em risco. Uma ironia, não? Logo na primeira vez eu fiz algo que eles jamais tiveram coragem de fazer, eu pude sentir o prazer de tirar uma vida com minhas próprias mãos.
            – Por que fez isso? Você é burro! – Gritou Fernando. – Ele nem reagiu. Por que você o matou?
            Apenas olhei para ele, não respondi. A sua boca se movimentava na minha frente, mas eu sequer ouvia seus gritos. Tudo parecia indiferente naquele momento. Não importava o que dissessem, ou gritassem. Nada do que fizessem ou pensassem poderia acabar com a magia daquele momento. Voltei meu olhar novamente para o cadáver e continuei contemplando aqueles olhos de desespero, agora vazios e inexpressivos; mortos.
            Ninguém ali seria capaz de compreender a magnitude daquele momento. Não o culpava, ele jamais deveria ter sentido algo assim. Ser acometido por aquela euforia, um sentimento de completa liberdade. Eu era capaz de ouvir o meu próprio coração, senti-lo pulsando. Meu corpo completamente arrepiado, um estado de êxtase, como se minha existência perpassasse meu próprio corpo, estivesse além; como se eu fosse detentor do poder de decidir entre a vida e a morte. Sentia-me mais próximo de Deus.
            As mãos de Fernando me agarraram pela gola da camiseta, depois me deu um tapa no rosto. Seus olhos estavam carregados de raiva e medo. Ele estava confuso, não sabia o que fazer diante daquela situação. Não sabia o que fazer comigo. Enquanto isso Anderson e Lucas – os outros dois companheiros – apenas observavam ao longe, sem dizer nada.
            – Você tem noção do que você fez? – Gritava Fernando, me segurando pela camiseta – Tem? Agora não é apenas mais um roubo igual essas pessoas já estavam acostumadas, isso foi um assassinato! Você sabe o que isso significa? Por sua culpa, agora a gente ta ferrado! A gente ta ferrado, você ta entendendo? E a culpa é sua!
            Ele estava furioso, mas mais do que isso, ele estava acometido de desespero. Parecia que tudo tinha fugido ao seu controle. Continuava gritando comigo, sem parar. Não tinha nem mesmo se dado conta que deveríamos sair dali antes que alguém pudesse entrar e ver aquela cena. Só se preocupava em vomitar em cima de mim a sua fúria, os seus medos.
            Eu continuei quieto, não disse uma única palavra. Mas acredito que meu olhar teria sido capaz de demonstrar o que eu realmente sentia se ele tivesse tido tempo ou intenção de compreendê-lo. Olhava-o com desprezo. Fernando estava tomando de mim aquele instante, privando-me dos meus sentimentos. Talvez tenha inveja de mim, pensei. Ele jamais fora corajoso o bastante para fazer aquilo. Eu era mais forte, e isso ele não poderia suportar. Senti raiva!
            – Chega, Fernando. Precisamos ir. – Disse Lucas, interrompendo-o. – É melhor a gente dar o fora daqui. Depois você termina com isso.
            Fernando recuperou a razão, voltou a si e me empurrou – foi um golpe forte, me derrubou no chão.
            – Vamos – Disse ele olhando para os dois que estavam parados; voltou o rosto para mim. – Depois a gente acerta isso.
            Eles saíram correndo. Levantei-me rapidamente e fui atrás deles. Eram as únicas pessoas que eu tinha afinal. Todavia, isso não era o suficiente para abrandar o ódio que eu passara a nutrir por Fernando depois de toda aquela humilhação. Não por ele ter me esbofeteado e me tratado como um inútil, isso não importava, sim por ele ter estragado aquele momento sublime, o momento que mudaria a minha vida.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Solidão

Vede essas lágrimas
Que se derramam dos olhos
Olha esse sangue
Que transborda o peito
Tamanha é a tristeza
Que cala, até mesmo, minhas palavras
Essas, vãs, dispersas e frias
Se fazem incapazes de expressar
Tão intensa melancolia

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Brincando de Machado Pt. II

            Ah, aquele sorriso! Emoldurado por aqueles róseos lábios e completo com os olhos que reluziam, negros, o brilho do sol. Vi-me aproximar dela e entrelaçá-la em meus braços. Ela, me olhando com certo espanto, mas sem resistir, tocou meu rosto com suas delicadas mãos. Fitei-a profundamente os olhos e vi sua face tornar-se próxima. Quando, quase pude sentir a sua boca tocando a minha, fui interrompido.
            - Onde vais tão distraído, Sr. Azevedo?
            Despertei-me naquele instante de meus devaneios. Olhei, ainda um pouco assustado, era o Sr. Augusto de Macedo, amigo antigo de meu pai, um velho, cabelos grisalhos repartidos ao meio, baixo e gordo, com um bigode que lhe alcançava os lábios. Me viu e veio falar-me. Contudo, leitor, não entrarei nos detalhes de nossa conversa, assim poupar-te-ei – e também a mim – de se angustiar com tamanho tédio.
            Despedi-me dele e voltei para casa. Fui até meu escritório, precisava retomar o trabalho. Peguei os papéis e os livros e os espalhei sobre a escrivaninha. Fui, todavia, incapaz de fazê-lo. Por bem mais de uma vez tive que repetir cálculos ou reler um mesmo trecho de algumas páginas; sempre terminava nas lembranças do tal sorriso.
            Decidi parar um pouco. De nada adiantaria continuar. Recostei-me na poltrona. Quase cochilava quando ouvi tocar a sineta da porta de entrada. Aguardei alguns segundos na esperança de que alguém pudesse atendê-la que não eu. Mas ouvi outra vez o tilintar da sineta. Então me levantei lentamente, me recompus do meu pré-sono e fui ver quem me tirava o sossego.
            Abri a porta; prontamente me arrependi da minha demora. Os olhos, que estavam antes ainda caídos pelo sono, agora se abriam para contemplar outra vez o brilho daquele olhar. Era Anita.
            - Boa tarde, Senhorita!
            - Boa tarde, Sr. Azevedo! Me pai pediu que lhe trouxesse os cadernos de contabilidade. Quis fazê-lo rapidamente, antes que o senhor desistisse. – Terminou a frase sorrindo.
            Sorri junto. Estendi a mão para pegá-lo, porém, toquei, sem querer, a dela. Continuamos assim por alguns instantes, as mãos sobrepostas e olhando um para o outro. Ela deixou que o objeto deslizasse por entre seus dedos e ficasse seguro entre os meus. Afastou sua mão da minha um pouco sem jeito, se despediu e partiu. Eu continuei ali, vendo-a se distanciar. Dessa vez ela não sorriu, nem olhou para trás. Talvez tenha se assustado, pensei. Mas fora apenas um acaso. Não era motivo para deixá-la vexada. Não havia razão para que eu me preocupasse.
            Voltei aos meus aposentos ainda sentindo aquele delicado toque em minha mão. Sentei-me de novo na poltrona; estava, porém, desperto demais para tentar retomar minha cesta. Resolvi continuar o trabalho – que eu sequer iniciara. Comecei, entretanto, não por aqueles que já estavam esparramados sobre a mesa. Abri aquele caderno verde que Anita me entregara. Não que aquele trabalho fosse mais importante; mas ela, sim, era.
            Comecei a folhear o material. Números, números e mais números. Contas de anos de trabalho. Precisava conferi-las todas antes de dar continuidade. Cada página que passava fazia-me aumentar o tédio. Fui, todavia, surpreendido com um pequeno pedaço de papel entre as folhas do caderno. Estava dobrado, eu não podia ver seu conteúdo. Minha moral pedia que eu o deixasse ali e ignorasse, mas quanto ela valia sobre o meu lado humano, sobre minha curiosidade se estávamos na sala somente eu ela? Ignorei-a completamente, tomei o papel nas mãos, desdobrei-o e li.
            “Encontre-me amanhã à tarde, às dezesseis horas, perto do cais.” Era o que estava escrito. Era uma letra arredondada, delicada, certamente de uma mulher. Estava, contudo, com pouco capricho, fora, provavelmente, escrito às pressas. Seria para mim? Seria de Anita? Pensei. Ansiava para que fosse. Mas que garantias eu tinha? Na havia nenhuma identificação. Mas haveria de ser dela. Quem mais poderia fazê-lo? E para quem? Sim, era certamente ela. Era melhor que eu pensasse assim.
            Comecei a fazer planos, imaginei encontrá-la, tomá-la nos braços e tornar real tudo aquilo que eu havia imaginado, tudo que eu havia sonhado. Quando já estava certo de que iria, pensei: mas e se for um bilhete para o senhor Moreira? Talvez seja de uma amante. Ele era velho e feio – a beleza da filha se devia toda à mãe, com certeza, que me fazia questionar algumas vezes o motivo de ser casada com tão feio homem –, mas tinha um bom dinheiro, não seria difícil arranjar uma rapariga que lhe encontrasse por interesses. Mas ele já estava velho demais para essas coisas. Não estava mais na idade de enamorar-se às escondidas. Não poderia ser isso. Era certamente de Anita.
            Lembrei-me então da reação dela ao partir. Ficara sem graça. Agora estava claro, o que lhe deixara envergonhada não foi o toque das mãos ao acaso, mas sim o propósito que a trouxera aqui. Foi isso, desde o início, que a deixara com aquele olhar tímido.
      Essa constatação me animou outra vez leitor, passei o dia todo esperando para encontrá-la. Acredito, contudo, que estejas mais interessado no encontro do que no que se passou comigo durante o resto daquele dia e o início do outro. Então me adiantarei em satisfazer tua curiosidade. Vamos direto ao encontro do bilhete.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Sintonia

- Você pode me ver? - perguntou o garotinho quando sentiu o
leve toque sobre o seu ombro.
- Por que não poderia? - respondeu ela.
- Porque todos passam por mim como se eu não existisse...
- É porque você sempre se esconde.
- Não. Eu estou sempre aqui.
- Debaixo desta máscara.
- É apenas um sorriso.
- Mas não é seu.
- Você percebeu?
- Sim. Nós percebemos essas coisas.
- Os anjos?
- Os amigos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Aviso aos Leitores

                    Caros leitores, antes de tudo um muito obrigado por me acompanharem e me motivarem cada dia mais a ter vontade de escrever. As visitas nesse mês foram muitas. Fiquei muito feliz com isso. Obrigado!
                    Contudo, as provas se aproximam. O tempo agora me é curto. Ainda que não me falte vontade de escrever não conseguirei ser tão frequente quanto tenho sido nesses últimos dias. Tentarei fazer, ao menos, postagens semanais, mesmo nesse meu escasso tempo. É chegada a hora de priorizar os estudos.
                       Obrigado pela compreensão!
                       
                        Eduardo Cunha Vilela

sábado, 30 de outubro de 2010

Fragmentos Pt. III

- Você já fez alguma loucura por alguém?
- Quem nunca fez?
- Você faria uma loucura por mim?
- Não!
(Silêncio)
- Por você, nada seria loucura!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Brincando de Machado Pt. I

            Confesso, caro leitor, que fui devidamente influenciado pelo narrador machadiano. Ainda que essa angústia me corroesse por dentro e me tirasse o sono todas as noites, se eu não tivesse me deparado com as palavras de Bentinho, seus medos, vontades, ainda que sórdidas, e suas cismas, eu jamais me atreveria a contar aqui o que se segue.
            Entretanto, antes que continues lendo, eu alerto que ainda tens a opção de parar, de não conhecer a vil história desse narrador que vos fala. Tens por escolha deixá-la se perder no tempo e morrer antes mesmo que esse miserável a quem deste atenção até aqui.
            Se lês esta frase, leitor, é porque insistes em conhecer o meu lado mais escuro, os meus pensamentos mais desprezíveis, os meus mais sujos atos. Não posso impedir que o faças, mas lembra-te de que escolheste por si só, mesmo que por mais de uma vez eu o tentasse convencer do contrário.
            O ano era mil oitocentos e oitenta e nove, eu era de família bem de vida. Não éramos deveras ricos, mas papai contava com seus quase vinte escravos em sua pequena propriedade – ao menos até que assinassem aquela maldita lei. Não julguem-me ainda,  sempre fui à favor das causas abolicionistas. Admito, contudo, que não teria sido se pudesse saber o que me aconteceria poucos anos depois. Teria me vingado dos negros antes mesmo que tudo acontecesse, apenas para ter certeza de tê-los punido o suficiente pelas minhas dores. Esse, porém, é um assunto para mais tarde.
            O que deves saber do referido ano é que eu acabara de me formar, estudara as ciências contábeis. Como papai se encontrava doente e os escravos haviam sido libertos ficara difícil para que ele mantivesse os cuidados das finanças. Assumi os negócios. Tentei manter nossas dignidade e condição social tão boas quanto antes. Encontrei no começo algumas dificuldades, mas me saí bem. Conheci muita gente, velhos conhecidos de meu pai - fazendeiros, ex-senhores de escravos e também muitos comerciantes. Apesar de não termos, naquela época, muitas terras, papai era um ótimo negociador, sempre conseguia bons preços compradores de tudo que produzíamos.
            Fiz importantes amizades; mostrei-me um homem inteligente, culto e maduro, apesar de ainda jovem. Tinha tino para negócios. Era também bem-apessoado, como costumava dizer Dona Gertrudes - uma negra que desde sempre trabalhara para mamãe e continuara mesmo depois da abolição; era praticamente da família -, falava que não entendia um rapaz tão bem-apessoado como eu não ter ainda conseguido uma prenda. Talvez estivesse certa. Não tardou muito para os velhos amigos da família demonstrarem interesse em ver-me enamorado de suas filhas moças. Alguns deles chegavam a torcer os bigodes ao falar ao outro que sua própria filha era o melhor partido, apenas no intuito de me impressionar.
            Perdoem-me pela prolixidade. Detive-me a contar muito sobre mim e minhas histórias que esqueci-me de porque estou aqui e, principalmente, de porque estás aqui. Não queres saber da vida de trabalho desse que vos fala. Anseias por aquilo que até hoje escondi. Desejas penetrar à minha alma nos seus pontos de maior sordidez. Sei que não admitirás, leitor. Tua vontade de se fazer bom aos olhos dos outros é mais forte que tua curiosidade, ainda que essa última te consuma por dentro. Mas eu sei leitor, sou tão humano quanto tu. Tão hipócrita também.
            Vamos direto ao que realmente importa daquele ano. Foi numa tarde de primavera, mais precisamente o calendário contava os vinte e oito dias do mês de setembro. A filha de João Moreira, conhecido de meu pai de longa data -  que, sabendo que eu estava formado e fazia um bom trabalho com as finanças da família, a pediu que viesse ter a mim; precisava de meus serviços -, bateu na porta de casa. Gertrudes estava  ocupada ajudando mamãe em seus afazeres; fui eu mesmo atender ao chamado.
            Há muito não a via. Quando a conheci nem era moça ainda, brincava de bonecas. Confesso que espantei-me. Ela não era mais aquela menina com voz estridente que eu conhecera outrora. Era uma bela mulher. Tinha cabelos longos, castanhos escuros e ondulados, desciam abaixo dos ombros, a pele clara, mas queimada de sol, olhos negros, como uma pedra ônix, lábios carnudos, me hipnotizaram – tive vontade de senti-los junto aos meus. Precisou repetir mais de uma vez o que viera me dizer para que eu a compreendesse.
            Acredito que tenha percebido meu desconcerto, pois, depois de dizer-me o que lhe pedira o pai, já de costas para partir, virou o rosto em minha direção e sorriu.
            Aquela boca, aqueles olhos, aquele sorriso me tiraram a concentração pelo resto do dia. Imaginava-me tomando-a nos braços e trazendo-a junto a mim; ansiava por sentir o toque dos seus lábios. Lábios que me roubaram o sono; os mesmos que desejei durante toda a noite.
            No dia seguinte, nem bem amanhecera, saí. Fui até a casa de João Moreira. Fui falar-lhe pessoalmente sobre o trabalho que gostaria que eu fizesse. No caminho, parei. Tomei um café. Tive um dedo de prosa com alguns conhecidos e continuei. Não eram ainda nove horas e eu já estava lá. Bati à porta; fui atendido. Uma senhora negra, roliça, já com seus cinquenta e tantos anos, foi quem abriu. Era Zulmira, que assim como Gertrudes era para mamãe, ela era para a senhora Moreira, também como se fosse parte da família.
            - O Sr. Moreira está?
            - Está.
            - Poderia chamá-lo? Diga-lhe que é José de Azevedo, filho de Joaquim de Azevedo, seu velho conhecido. Vim falar-lhe sobre o serviço que sua filha foi-me requisitar ontem, em seu nome.
            - Pois só um momento, Sr. Azevedo.
           Ela entrou, foi balançando aquelas grandes ancas. Voltou em alguns momentos e disse-me que o senhor João me aguardava.
            Eu entrei e fui falar-lhe. Enquanto andava pelos cômodos e longos corredores procurei com os olhos, pela casa toda, por Anita, – sim, esse era o nome daquela que me roubara o sono – mas ela não estava. Senti-me desconfortável. Não tinha nada mais para dizer do que aquilo já pedira a filha que lhe dissesse. Tudo aquilo não passava de uma desculpa para poder vê-la novamente. Todavia, ela tinha ido à feira com a mãe. Demorar-se-iam um pouco, foi o que me disse o Sr. Moreira.
            Falei-lhe pouco. Não muito mais do que ele já sabia. Inventei um compromisso para não aceitar o café que me oferecera e quis partir. Levantei-me, despedi-me, peguei o chapéu e saí. Disse que voltaria outra hora para combinarmos o trabalho e o preço. Ele ficou agradecido com minha visita, falou que não esperava que eu fosse tão cedo até lá. Confessou ter sentido em mim bastante responsabilidade, que acreditava ter escolhido a pessoa ideal para o trabalho.
            Nessa hora me senti culpado. Não fosse sua filha ter ido me falar eu me demoraria pouco menos que uma semana para atender-lhe o chamado. Contudo, a culpa não durou muito. Aliás, durou poucos segundos. Desapareceu instantaneamente quando, saindo pelo portão, dei de cara a Sra. Moreira e Anita. Cumprimentei-as. A mãe foi gentil, mas a garota foi um pouco seca. Timidez, provavelmente. Penso isso porque, logo que conseguiu deixar que a mãe ficasse um só passo a frente, ela se virou e novamente me sorriu.