sexta-feira, 30 de julho de 2010

Feitiço dos Olhos

Uma busca incessante
O fascínio dos teus olhos
É inútil pois
Sequer sei por onde começar...
Em estar só hei de me contentar
Mas quando, cheia, a Lua reina nos céus
E a negra noite silencia o dia
Em sonhos vens
Trazes consigo...
Uma palavra
Um gesto
Um toque
Um olhar
Encanta-me, hipnotiza-me
Como ninfa em sua divina beleza
Rendo-me e me declaro
Um beijo
Teu beijo!
Num sonho...
Do qual jamais desejei despertar

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Despeço-me

Entrego ao tempo, ainda que relutante
O anseio de amar-te
Sentimentos restam
Mas morre em mim a vontade
O desejo de tê-la ao meu lado
Agora parto
Vê-me partir
Comigo esvai-se, pra sempre
Como sonhos que desmoronam
E ilusões que se findam
A esperança do teu beijo

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Fatalístico

            Com uma moeda em mãos ele se dirigia faceiro até a venda para comprar um caramelo. Mas, surpreendido no caminho por uma mulher de meia idade, parou. Ela pedia em nome de Deus uma moeda que pudesse lhe servir para comprar um alimento para a filha – aquela criança, com pouco menos de um ano de vida, que ela carregava nos braços.
            Aqueles olhos lhe pareceram puros e sinceros – aos seis anos todos pareceriam – e ele crente, como a mãe beata que o criara, não poderia negar àquela senhora a única moeda que tinha para salvar a filha da fome que ele nunca sentira. Ainda mais por um pedido feito em nome do Deus que provia a comida que o fartava todos os dias.
            A mulher pegou a moeda com gosto, sem importar que ele fosse um garotinho. Mas em pagamento tomou-lhe as mão direita e disse:
            – Jovem menino. Por ter me dado essa moeda de bom grado, em nome de Deus, nosso Senhor, lhe revelarei o futuro escrito na palma de sua mão. Muito me alegro em dizer, e espero que assim também faça você ao ouvir-me, que, ainda jovem, contará com a sorte e comprará um bilhete premiado que o fará rico. Será devidamente recompensado por essa humilde quantia que dera a essa cigana.
            O garoto nada disse àquela mulher. Correu ansioso para casa. Não podia esperar que lhe dessem mais uma moeda para poder comprar o seu primeiro bilhete. Aquele que lhe traria a tão estimada sorte, que ele estava fadado a ter.
            Desde então todo o pouco dinheiro que lhe davam ele guardava. Juntava as poucas moedas que ganhava até poder comprar um bilhete, na esperança de que aquele seria o último e lhe daria o tão valoroso prêmio. Contudo, nunca o era. Sempre era obrigado a ter esperança no bilhete seguinte.
            Os anos se contavam e o tão esperado dia nunca chegava. Certa vez, com seus vinte e poucos anos, farto daquilo, decidiu tirar satisfações com o destino. Procurou por toda cidade uma vidente que pudesse lhe dizer por que sua sorte decidira mudar.
            Em um bairro afastado encontrou uma pequena barraca. Foi adentrando sem chamar por ninguém. Pegá-la-ia de surpresa. Não daria ao destino tempo de se preparar para dissimular-se.
            A senhora estava lá, sentada atrás de sua bola de cristal. Ele entrou e foi logo vomitando tudo o que passara e a questionando porque ainda não recebera a recompensa que lhe fora prometida. Ela, numa calma profunda, lhe respondeu:
            – Acalme-se, meu jovem. O que lhe foi prometido ainda haverá de ser seu. O que o destino te reservou será dado ainda. Contudo, é preciso que espere que o tempo chegue. Foi-lhe prometido recebê-lo ainda jovem. Mas por quantos anos ainda haverá de durar a sua juventude?
            Ele acalmou-se e desculpou-se pela sua rudeza. Agradeceu à senhora e pagou-lhe o preço da consulta. Despediu-se dela e dirigiu-se à saída. Mas antes que pudesse fazê-lo ela o chamou:
            – Meu rapaz, o artefato místico – disse, referindo-se à bola de cristal – obriga-me a alertá-lo que, mesmo que afortunado, cuide os automóveis, pois me é revelado um acidente em que você, ainda moço e rico, se despedirá da vida. Digo-lhe ainda que te cuide não só como piloto ou passageiro. A imagem que vejo é obscura. Não posso lhe dizer com certeza o que tem nela.
            Essa fala atacou-lhe como uma punhalada. Talvez fosse o destino querendo se vingar de suas dúvidas e insatisfações. Ou talvez fosse o próprio Deus, Enraivecido com seus pecados. Porém, não importava o que fosse, suas preocupações eram agora com sua vida.  Temia por ela. E não era por menos, ver um automóvel era, para ele, o mesmo que deparar-se com a face da morte.
            Passou cada dia do resto de sua vida evitando aquele tão desgraçado acidente. Sempre dividido entre sair de casa, arriscando-se para buscar o bilhete premiado, ou, aconchegado em seus aposentos, evitar o terrível fim que lhe era aguardado.
            Os anos tomaram-lhe a juventude e o prêmio jamais viera. E mais um dia ele estava lá, estatelado na cama, esperando que por mais uma vez conseguisse enganar o destino e evitar seu trágico final. Morreu à míngua, de velho que era; deitado em sua própria cama, e sem nunca receber um tostão. Talvez o prêmio fosse o preço que o destino havia lhe cobrado pela vida, refletia ele. Mas quanto lhe valera a última? Pois fora ela inteiramente desperdiçada pelas suas crenças banais.

Fim

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Do Mundo como ele é...

            Era um velho, rabugento e carrancudo. Tinha poucos amigos, muitos a vida e o tempo lhe haviam tirado, outros – segundo ele – não mais mereciam ser chamados assim. Somente a um chamava amigo com gosto.
            Já não tinha entusiasmo e poucas coisas ainda lhe despertavam certa admiração. Era completamente descrente de tudo e de todos. “Confiar é tolice”, dizia. “Sentimentos são coisas estúpidas. Foi-se o tempo em que os homens tinham virtude”, concluía – com a fala de quem estava calejado dos tombos que a vida lhe dera. 
            Jurava que jamais voltaria a sentir algo por alguém que não fosse ele mesmo. “Aquele que ama unicamente a si é o que prospera. Pois hoje, vocês haverão de concordar, não se fazem amores como os de antigamente, daqueles em que você podia se entregar e confiar”. Discursava lembrando-se da única vez em que amou. Um amor platônico de uma paixão fulminante que, por ironia do destino, jamais se fez cumprir.
            Mesmo que ela tivesse quinze anos e ele dezesseis juravam amor e lealdade eternas. Faziam planos de se amarem, enamorarem-se, e nunca se separarem um do outro. Mas bastaram poucos meses e ela se mudou para a capital. Não mais trocaram uma única palavra sequer.
            Deitou-se, enamorou-se e até casou-se com outras mulheres; envelheceu; enviuvou-se, sem, entretanto, nunca esquecer aqueles olhos que traziam o único amor em que ele já pode acreditar.
            Contudo o acaso haveria ainda – mesmo que ele estivesse velho e sem ânimo pra surpresas – de lhe pregar uma peça.
            Estava ele lá, preparado mais uma vez para um de seus discursos niilistas, quando a viu. Décadas haviam se passado, mas olhar algum seria capaz de encantá-lo como aquele. Sem dúvida nenhuma, era ela. Ela havia se enviuvado havia alguns meses e, cansada da cidade grande, decidiu voltar para o interior.
            Mesmo que no fim da vida os céus haviam resolvido lhe dar uma chance. Não teria esperado em vão. Talvez a vida não fosse tão sem sentido assim.
            Trocaram olhares, falaram-se e amaram-se. Lamentaram o tempo que perderam e culparam o destino pelas suas infelicidades. Fizeram novas juras e planos de ficarem juntos até o fim da vida.
            Casaram-se. Ele vivia agora a tão sonhada felicidade que só poderia experimentar ao lado de sua amada. Voltara até a acreditar em tudo aquilo de que a vida lhe fizera duvidar.
            Certo dia, porém, ele resolvera voltar mais cedo pra casa para fazer uma surpresa para sua senhora. Levava flores e um belo sorriso no rosto. Contudo, ao abrir a porta, se deparou com ela aos beijos com o único a quem ele tinha convicção de chamar de amigo. A vida lhe pregava mais um golpe.
            Não importava a data, amores seriam sempre amores, homens seriam sempre homens; e o mundo seria sempre cinza.

Fim

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Anseios

Por que sentir?
Seria tão mais fácil não fazê-lo...
Invejo as pedras
Por eras imóveis, mutáveis
Sem derramar uma só lágrima
Sem nunca experimentar
Por uma única vez, a tristeza
Invejo a Lua
Que na escuridão da noite
Nina e encanta
Tão devassa Terra
Sem nenhuma ambição
Quisera eu ser tão indiferente
Mas egoísta que sou
Por trás de cada gesto
Um desejo
Teu beijo
Guardado apenas na lembrança
Uma só pergunta me resta:
Por que roubar-me ilusões
Se me ofereceria somente solidão?

domingo, 11 de julho de 2010

Um Conto Alegre

            Ele era um jovem escritor. Tinha um talento nato, que nem mesmo ele acreditava ter. Porém, sua inspiração – afinal todos os artistas precisam de uma – vinham dos seus momentos de tristeza. Talvez porque ele jamais tivera experimentado um sentimento que não fosse esse.
            Certa vez lhe pediram que escrevesse um conto. Não importava o tema, desde que  tivesse um final feliz. Para muitos parecia fácil. Para ele, era a mais árdua das tarefas.
            Começou então sua maratona. Pegou uma folha e se pôs a escrever. Buscou exaustivamente um título. Nada lhe vinha à cabeça. Quaisquer coisas que pensava pareciam não ter sentido. Minutos se passavam. Horas. Ele continuava lá. Caneta em mãos e a folha, que continuava em branco.
             Talvez seja melhor começar pelo texto, pensou.
       Pôs-se a trabalhar. Mas suas ideias pareciam desconexas. Escreveu algumas palavras. Olhou bem pra elas. Não era o que queria. Amassou a folha e a arremessou no cesto de lixo. Pegou outra. Tentou novamente. Outra vez o seu texto parecia mais uma mistura de palavras perdidas do que um conto. Mais uma pro cesto.
            Passaram-se horas. Dias. Semanas. Ele continuava com uma folha em branco e, agora, imerso em um mar de bolinhas de papel. Não queria desistir, mas já não aguentava mais.
            Contudo, num ímpeto, fora acometido de um momento de inspiração. Abaixou a cabeça  e começou a escrever. Não parou até que estava terminado. Pronto!
            Havia concluído sua obra. Um conto que não terminava em tristeza ou lágrimas. Um conto dedicado à felicidade:
            “Era uma vez a felicidade... Fim” – Nada mais poderia escrever sobre algo que desconhecia. Sobre um sentimento que jamais sentira.

Fim

Terrores Noturnos

A lua toca os céus no seu mais alto ponto
A noite invade o quarto
Abrem-se as fendas do mais profundo abismo
Aquele trancado em meu peito
Preenchido pelo vazio
Emergem dele, envoltos em trevas, os demônios
Habitantes dos mais obscuros trechos da minha mente
Sedentos por lágrimas
Famintos pela dor
Indolentes devoram minh'alma
Torturando-me com lembranças do que jamais vivi
Martirizando-me com arrependimentos do que jamais fiz
Deixam pra trás um único sentimento
Solidão
Que prolonga-se, incessantemente, até o amanhecer
Quando o sol faz esboçar um falso sorriso
Que dissimula e ofusca o desespero
Trazido pelo silêncio da noite