sábado, 31 de outubro de 2026

Mineirosofia

— É lindo, não?

 — Eu sempre quis ver o mar. E, agora que tô vendo, não sei muito bem o que dizer.

 — Por que você acha que precisa dizer alguma coisa?

 — Parece o certo, não? Não deveria ser assim quando realizamos um sonho?

 — Mas é um sonho seu? Ou você só se deixou levar?

 — E lá tem como saber? Quer dizer... no fundo, não é assim que são construídos todos os sonhos? Como eu poderia sonhar com algo que eu nunca vi ou ouvi falar? Seria como pedir um paulista pra imaginar o gosto de pão de queijo de verdade.

 — Mas se você só ouviu falar, não é como viver o sonho de outra pessoa?

 — E a imaginação não conta?

 — Não.

 — Uai, mas eu vivi aquilo na minha cabeça.

 — E parece com o que você imaginou?

 — Não.

 — Por quê?

 — Sei lá... Sempre imaginei que fosse mais parecido com uma água de cachoeira.

 — E não é?

 — E na cachoeira tem sal?

 — E isso importa?

 — Não deveria?

 — Talvez... Mas pelo menos você tem que concordar que é lindo.

 — É... Ou melhor, é bonito. É lindo não.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Patrióticas



Por mais que proclame
Ao raiar a liberdade
Fugiu pra Miami

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Nucleares

Um paletó de linho
Plaquetas de identificação
Um relógio de bolso
De vidro trincado
E um ponteiro parado
Uma carteira
Cinquenta e sete reais
Um cartão postal
Com uma foto
Antiga e apagada
De um garoto adolescente
E uma garotinha
Com o que sobrou de sorrisos
Data no verso:
21 de setembro de 1945

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Canto para a estrela

Hoje, um pássaro cantou
Um canto contido
Do grito emudecido
Se fez o clamor
Uma mensagem não dita
Vivida, e na história escrita

Mas um canto é só
Mais um canto, e só
Enjaulado e preso
Num sonho intenso de esperança
Do dia em que alçará seu voo
Ao esplendor da mudança

Nesse dia, a estrela
Brilhará no céu
E arderá no lábaro
Não um brilho frio
Do ouro de tolo
Em um firmamento de papel

E este canto há de ecoar
Sob a alvorada da liberdade
Onde a águia e o martelo
Serão memórias
De antigas trincheiras
Que o tempo sepultou

Mas este canto
Já foi cantado
Em outros outubros
De notas e promessas vazias
E é só mais um canto,
E só

Despotados

De quatro em quatro anos,
As ruas ficam sujas
E os dias insuportáveis
Com aquelas paródias
De quinta categoria
Que me gritam nos ouvidos
Um número vazio de promessas
De um desconhecido sem rosto
Que vem me bater à porta
E pegar minha mão
Como se íntimo fosse,
Quando, na verdade,
Seu interesse só dura
Até eu apertar
O botão "Confirma".

sábado, 24 de outubro de 2026

Amor?

O ser que se busca no outro
E que de si faz-se morada solitária
Não encontra no amor a razão
E assim abandona a graça
E o sentido de toda fé.
                 *
E, com todo seu ar ranzinza,
“Amor?” — disse ele — com desdém.
"Nunca senti, nunca chegou até mim"
De bate-pronto, respondeu ela, impaciente:
“Amar se aprende, Armando.”

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Quase

Quando acordei, dei
Um último suspiro
Ainda um tanto
Sonolento e talvez
Exausto

Que sequer percebi
Ultimamente o quanto
A falta e a
Saudade marcam
Esses momentos

Quando a lembrança
Última de uma presença
Ainda insiste em
Se fazer angústia
E um nó na garganta

Que falha na
Ultrajante tarefa de
Aprisionar a tristeza e
Segurar um choro
Em um grito emudecido de

Querer retornar pela
Última vez a um tempo
Anterior, no qual
Sua companhia
Existia para além da memória

Quisera eu, em
Utopia e ilusão
Adormecer e
Sonhar um sonho de
Eterno encontro, ou

Quem sabe, ao menos, ter
Um breve e derradeiro instante
Apenas para dizer que
Sinto muito não poder
Estar lá no teu adeus

sábado, 17 de outubro de 2026

Des-ser

Nos olhos sem brilho
Opacos, distantes,
E no ecoar emudecido
Das batidas finais
De um coração inerte
Em um peito sem hausto,
Esvanece-se a consciência
Do que um dia se fez memória
E nada sobra senão
Um invólucro vazio de carne
Sem um pensamento
Que lhe permita existir

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Urbanidades insones

Motores e buzinas ao longe
No teto, sombras tremeluzentes
Nos ouvidos, um constante vruuuummm

Crimes silenciosos e amores ecoantes
Em contraste, a invasão de um silêncio sufocante 
De um tempo vivo: tic-tac... tic-tac

Com os primeiros raios de sol
Olhos vermelhos despertos
E as badaladas da manhã: blem, blem, blem

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

(~in)finitivos

Nascer, respirar e sentir
Contemplar... Perceber
Ser
Nutrir e crescer
Florescer 
Arriscar...
Ganhar e perder 
Aprender, amadurecer
Experimentar, amar
Sofrer, seguir, insistir
Desistir
Recomeçar
Contemplar, ressignificar
Absorver...
Compreender e reaprender
Lutar, vencer, ceder
Conceder
Ver passar, relutar
Debater, resignar-se
Aceitar
Rememorar
Perecer
Extinguir-se
Desvanecer

sábado, 10 de outubro de 2026

Um dia

Um dia haverá
Roupas sem pêlos
Um tapete no lugar
Uma escada limpa
Sofás inteiros
Chinelos antigos
Saldo na conta
E uma coleira vazia

Nesse dia não se ouvirá
O bater de rabos no chão
O arranhar das paredes
O latido estridente
O ronco pela noite
O arfar depois da brincadeira
O tec-tec na madeira
O suspiro num colo a relaxar

E apenas restará
Um silêncio a ecoar
O vazio que transborda
Um olhar distante
Perdido sobre um álbum de fotos
Com olhos marejados
E um sorriso de canto
Numa casa que não é mais um lar

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

(...)

Toc-toc?
...
Tic-tac
...

TikTok
Tic-tac
Tic-tac
Tic-tac

Toc-toc?
...
Tic-tac
...

Vrum
Tic-tac
Vrum
Vruum
Vruuuuuuuum
Tic-tac

Tum
Tum
Clic
Tic-tac 
Yaaawn...
Tic-tac

Zzzzz...
Tic-tac
Tic-tac
Tic-tac

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

₃₈Sr

 Oitava série
 Aula de química
 Um tédio oportuno
 109 elementos
 A tabela periódica
 Um nome engraçado
₃₈Sr, Estrôncio

Num lampejo
Um desejo de um sonho
E um destino a traçar
De orelhas fartas
E um corpo franzino
Andando em quatro patas
E um rabo a abanar

Do calendário de folhas
À tela do celular
Foram tantos anos
Até você chegar
Num dia 6 de janeiro
E meu colo, como sua morada,
Reivindicar

Foram vários chinelos mordidos
E promessas vazias
De que jamais chegaria
O tempo em que
Você iria reinar
Sobre os sofás e nos quartos
Sem qualquer pudor

Mas já se vão seis anos
Desde que um sonho juvenil
Pôde se fazer concreto
E os barulhos de patas
E um latido agudo
Viraram a trilha sonora
De uma vida feliz

sábado, 3 de outubro de 2026

Vó

No sábado, perfume de fubá
Mimoso vindo de dentro do forno
Daquele amarelo bolinho morno
E um pãozin' de queijo pra boca aguar

A fatia de rosca pra adoçar
A vida da gente mais um tiquinho 
E pra terminar aquele docinho
De leite com coco pra deliciar

Mas a verdade é que já não tem mais
A mesa posta pra tomar café
Nem gente em roda a comer e sorrir 

Sábado à tarde já não satisfaz
O fardo da vida como ela é 
Aceitar o tempo e te ver partir

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Meidade

Um copo ao meio:
Meio vazio?
Meio cheio?
Meio passado...
Meio futuro...
Presente somente.
Insípido.
Destilado? 
Deste lado.
Ou do outro? 
Apenas meio.
Meio vazio.
Sem cor.
Sem graça.
Sem taça.
Sem requinte.
Nem quente,
Nem frio.
Meio... Meio! 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Morfo-lógicas

O que será semente
A germinar pra sempre
Da terra aos céus
Dos seus aos meus
Os olhos a brilhar
E assim, a brotar
Os ramos rebentos
Que preencherão
A paisagem do nosso
Futuro do presente

No entrelace dos galhos
Dos corpos, dos sonhos
Que renderão os frutos
Os fetos, os afetos
Do presente

Porém, no chão, a esperar
As mazelas do tempo
As jabuticabas passavam
Tal qual o brilho dos teus olhos
No pretérito imperfeito

Que hoje me olham de canto
Em desafetos distantes
Esmaeceriam os destinos
No futuro do pretérito

sábado, 26 de setembro de 2026

Exatos estocásticos

 "Confie nos dados"
 — diria o cientista, 
e talvez o otimista.

Com olhar desconfiado: 
o estatístico, 
e o realista convicto.

Mas, em total negação: 
o integrativo charlatão... 
e o pessimista (com razão).

Ficcionices

Entre dois andares, 
Num elevador:
Sabe?
De uma coisa eu sempre tive medo:
De que algo assim acontecesse muito.
Embora, é verdade, amores, 
Nascem em situações
Como essa, ao menos. 
Foi o que li nos livros. 

Entre dois,
Andares num elevador:
Sabe de uma coisa?
Eu sempre tive medo
De que algo assim acontecesse.
Muito embora, é verdade,
Amores nascem
Em situações como essa.
Ao menos foi o que li nos livros.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Erosão

Eros:
Enebriado
Exótico
Eufórico
Exagerado
Erótico

São:
Sacro
Si
Sol
Só
Senão

Eros são?
Hermético
Heróico
Hipotético
Hilário
Herético

Erosão
Pungente
Prolífica
Penetrante
Permanente
Parafílica

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Afônico

A foto
O feto
A foto
O feito
A foto
O fato
A foto
Afoito
A foto
Aflito
A foto
O foi-se

sábado, 19 de setembro de 2026

E nada mais

Somente um poema
Somente... Semente...
Displicente?
Reto... Discreto...
Abjeto?
Feito... Desfeito...
Imperfeito?
Feliz... Infeliz...
Por um triz?
Lirismo... Niilismo...
Eufemismo?
Somente um poema

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Retrofilia(?)

Em nostálgico apego
Às vezes me pego
Aflito, reflito utópico
Num tempo entrópico
Que guarda do passado
Um acalento frustrado
Dum brinquedo largado
Um papagaio rasgado
Uma resignação pungente
Um clamor dissidente
De um tempo que passou
E me fez o que sou