quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Dia do Saci

    Algo que eu sempre quis entender é o nosso nacionalismo seletivo. O Brasil sempre praticou uma certa antropofagia das culturas à nossa volta: absorvemos, incorporamos, mas depois juramos que sempre foi nosso. Somos o país do carnaval, que chegou com os portugueses. As festas juninas, que vemos como um marco da nossa cultura, têm como dança tradicional a quadrilha, derivada da quadrille francesa. Até a feijoada, orgulho nacional, é parente dos cozidos europeus, como o cassoulet e a fabada — mas insistem e até ensinam na escola o mito de que nasceu do feijão com restos de porco nas senzalas.
    Nem o Natal escapa. A data foi fixada em 25 de dezembro, segundo uma das hipóteses mais aceitas, para coincidir com festas pagãs romanas. E nós ainda importamos o pinheiro com neve de algodão, que enfeitamos sob trinta e cinco graus, e um Papai Noel de casaco de veludo, suando na porta do shopping.
E não paramos por aí. A gente abrasileira tudo: a culinária, a estética, a música, a produção intelectual. Há restaurantes italianos, japoneses, chineses e árabes em cada esquina, ainda que a gente encha tudo de cream cheese ou resolva fazer com sabor de estrogonofe — que é russo, por sinal —, e isso acabe causando uma enorme crise diplomática algum dia desses.
    Nada disso me parece estranho num país de origem tão diversa e com tantas ondas de imigração. Temos comunidades alemãs e italianas no Sul. Somos o país com mais japoneses fora do Japão e mais libaneses fora do Líbano. Nada mais justo que essas pessoas preservem suas tradições, assim como o nosso folclore, a nossa língua e a nossa música carregam as marcas indígenas e africanas do Curupira, da Iara, do Saci-Pererê e do Negrinho do Pastoreio.
    Por isso me parece paradoxal que, entre tudo o que importamos, justamente o Halloween seja tratado como uma ameaça à cultura nacional, a ponto de surgir o movimento, relativamente recente, de transformar o 31 de outubro no Dia do Saci como forma de preservar nosso folclore. Entendo a preocupação: o Saci, com uma perna só, não tem mesmo como correr atrás do marketing das abóboras. Mas veja a ironia: "folclore" vem de folk-lore, palavra de origem inglesa. E muitas das pessoas que levantam essa discussão estão se amparando em uma visão de mundo de origem majoritariamente europeia e estadunidense para se justificar.
    Enquanto isso, até que os italianos resolvam nos atacar pela pizza de estrogonofe com borda de cheddar, ou que o Japão ache um porto para bombardear pelo cream cheese no sushi, vamos seguir com baile de máscaras e doce ou travessura no 31 de outubro. Desconfio, aliás, que a briga acabaria rapidinho se a data fosse feriado. Ninguém reclama da origem pagã do Natal, desde que a folhinha do calendário venha vermelha. Até lá, meia dúzia de gatos pingados continua vociferando na internet: "É dia do Saci. Do Saci!".

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