Vede essas lágrimas
Que se derramam dos olhos
Olha esse sangue
Que transborda o peito
Tamanha é a tristeza
Que cala, até mesmo, minhas palavras
Essas, vãs, dispersas e frias
Se fazem incapazes de expressar
Tão intensa melancolia
Em muitos momentos de nossas vidas sentimo-nos como se estivéssemos fora da realidade. Nesses momentos libertamos nossas mentes de tal forma que nossa possibilidade de criação se torna praticamente infinita. Alguns optam por ignorá-la. Eu optei por transformá-la em palavras. Palavras essas que estarão gravadas aqui de hoje em diante.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Brincando de Machado Pt. II
Ah, aquele sorriso! Emoldurado por aqueles róseos lábios e completo com os olhos que reluziam, negros, o brilho do sol. Vi-me aproximar dela e entrelaçá-la em meus braços. Ela, me olhando com certo espanto, mas sem resistir, tocou meu rosto com suas delicadas mãos. Fitei-a profundamente os olhos e vi sua face tornar-se próxima. Quando, quase pude sentir a sua boca tocando a minha, fui interrompido.
- Onde vais tão distraído, Sr. Azevedo?
Despertei-me naquele instante de meus devaneios. Olhei, ainda um pouco assustado, era o Sr. Augusto de Macedo, amigo antigo de meu pai, um velho, cabelos grisalhos repartidos ao meio, baixo e gordo, com um bigode que lhe alcançava os lábios. Me viu e veio falar-me. Contudo, leitor, não entrarei nos detalhes de nossa conversa, assim poupar-te-ei – e também a mim – de se angustiar com tamanho tédio.
Despedi-me dele e voltei para casa. Fui até meu escritório, precisava retomar o trabalho. Peguei os papéis e os livros e os espalhei sobre a escrivaninha. Fui, todavia, incapaz de fazê-lo. Por bem mais de uma vez tive que repetir cálculos ou reler um mesmo trecho de algumas páginas; sempre terminava nas lembranças do tal sorriso.
Decidi parar um pouco. De nada adiantaria continuar. Recostei-me na poltrona. Quase cochilava quando ouvi tocar a sineta da porta de entrada. Aguardei alguns segundos na esperança de que alguém pudesse atendê-la que não eu. Mas ouvi outra vez o tilintar da sineta. Então me levantei lentamente, me recompus do meu pré-sono e fui ver quem me tirava o sossego.
Abri a porta; prontamente me arrependi da minha demora. Os olhos, que estavam antes ainda caídos pelo sono, agora se abriam para contemplar outra vez o brilho daquele olhar. Era Anita.
- Boa tarde, Senhorita!
- Boa tarde, Sr. Azevedo! Me pai pediu que lhe trouxesse os cadernos de contabilidade. Quis fazê-lo rapidamente, antes que o senhor desistisse. – Terminou a frase sorrindo.
Sorri junto. Estendi a mão para pegá-lo, porém, toquei, sem querer, a dela. Continuamos assim por alguns instantes, as mãos sobrepostas e olhando um para o outro. Ela deixou que o objeto deslizasse por entre seus dedos e ficasse seguro entre os meus. Afastou sua mão da minha um pouco sem jeito, se despediu e partiu. Eu continuei ali, vendo-a se distanciar. Dessa vez ela não sorriu, nem olhou para trás. Talvez tenha se assustado, pensei. Mas fora apenas um acaso. Não era motivo para deixá-la vexada. Não havia razão para que eu me preocupasse.
Voltei aos meus aposentos ainda sentindo aquele delicado toque em minha mão. Sentei-me de novo na poltrona; estava, porém, desperto demais para tentar retomar minha cesta. Resolvi continuar o trabalho – que eu sequer iniciara. Comecei, entretanto, não por aqueles que já estavam esparramados sobre a mesa. Abri aquele caderno verde que Anita me entregara. Não que aquele trabalho fosse mais importante; mas ela, sim, era.
Comecei a folhear o material. Números, números e mais números. Contas de anos de trabalho. Precisava conferi-las todas antes de dar continuidade. Cada página que passava fazia-me aumentar o tédio. Fui, todavia, surpreendido com um pequeno pedaço de papel entre as folhas do caderno. Estava dobrado, eu não podia ver seu conteúdo. Minha moral pedia que eu o deixasse ali e ignorasse, mas quanto ela valia sobre o meu lado humano, sobre minha curiosidade se estávamos na sala somente eu ela? Ignorei-a completamente, tomei o papel nas mãos, desdobrei-o e li.
“Encontre-me amanhã à tarde, às dezesseis horas, perto do cais.” Era o que estava escrito. Era uma letra arredondada, delicada, certamente de uma mulher. Estava, contudo, com pouco capricho, fora, provavelmente, escrito às pressas. Seria para mim? Seria de Anita? Pensei. Ansiava para que fosse. Mas que garantias eu tinha? Na havia nenhuma identificação. Mas haveria de ser dela. Quem mais poderia fazê-lo? E para quem? Sim, era certamente ela. Era melhor que eu pensasse assim.
Comecei a fazer planos, imaginei encontrá-la, tomá-la nos braços e tornar real tudo aquilo que eu havia imaginado, tudo que eu havia sonhado. Quando já estava certo de que iria, pensei: mas e se for um bilhete para o senhor Moreira? Talvez seja de uma amante. Ele era velho e feio – a beleza da filha se devia toda à mãe, com certeza, que me fazia questionar algumas vezes o motivo de ser casada com tão feio homem –, mas tinha um bom dinheiro, não seria difícil arranjar uma rapariga que lhe encontrasse por interesses. Mas ele já estava velho demais para essas coisas. Não estava mais na idade de enamorar-se às escondidas. Não poderia ser isso. Era certamente de Anita.
Lembrei-me então da reação dela ao partir. Ficara sem graça. Agora estava claro, o que lhe deixara envergonhada não foi o toque das mãos ao acaso, mas sim o propósito que a trouxera aqui. Foi isso, desde o início, que a deixara com aquele olhar tímido.
Essa constatação me animou outra vez leitor, passei o dia todo esperando para encontrá-la. Acredito, contudo, que estejas mais interessado no encontro do que no que se passou comigo durante o resto daquele dia e o início do outro. Então me adiantarei em satisfazer tua curiosidade. Vamos direto ao encontro do bilhete.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Sintonia
- Você pode me ver? - perguntou o garotinho quando sentiu o
leve toque sobre o seu ombro.
- Por que não poderia? - respondeu ela.
- Porque todos passam por mim como se eu não existisse...
- É porque você sempre se esconde.
- Não. Eu estou sempre aqui.
- Debaixo desta máscara.
- É apenas um sorriso.
- Mas não é seu.
- Você percebeu?
- Sim. Nós percebemos essas coisas.
- Os anjos?
- Os amigos.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Aviso aos Leitores
Caros leitores, antes de tudo um muito obrigado por me acompanharem e me motivarem cada dia mais a ter vontade de escrever. As visitas nesse mês foram muitas. Fiquei muito feliz com isso. Obrigado!
Contudo, as provas se aproximam. O tempo agora me é curto. Ainda que não me falte vontade de escrever não conseguirei ser tão frequente quanto tenho sido nesses últimos dias. Tentarei fazer, ao menos, postagens semanais, mesmo nesse meu escasso tempo. É chegada a hora de priorizar os estudos.
Obrigado pela compreensão!
Eduardo Cunha Vilela
sábado, 30 de outubro de 2010
Fragmentos Pt. III
- Você já fez alguma loucura por alguém?
- Quem nunca fez?
- Você faria uma loucura por mim?
- Não!
(Silêncio)
- Por você, nada seria loucura!
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Brincando de Machado Pt. I
Confesso, caro leitor, que fui devidamente influenciado pelo narrador machadiano. Ainda que essa angústia me corroesse por dentro e me tirasse o sono todas as noites, se eu não tivesse me deparado com as palavras de Bentinho, seus medos, vontades, ainda que sórdidas, e suas cismas, eu jamais me atreveria a contar aqui o que se segue.
Entretanto, antes que continues lendo, eu alerto que ainda tens a opção de parar, de não conhecer a vil história desse narrador que vos fala. Tens por escolha deixá-la se perder no tempo e morrer antes mesmo que esse miserável a quem deste atenção até aqui.
Se lês esta frase, leitor, é porque insistes em conhecer o meu lado mais escuro, os meus pensamentos mais desprezíveis, os meus mais sujos atos. Não posso impedir que o faças, mas lembra-te de que escolheste por si só, mesmo que por mais de uma vez eu o tentasse convencer do contrário.
O ano era mil oitocentos e oitenta e nove, eu era de família bem de vida. Não éramos deveras ricos, mas papai contava com seus quase vinte escravos em sua pequena propriedade – ao menos até que assinassem aquela maldita lei. Não julguem-me ainda, sempre fui à favor das causas abolicionistas. Admito, contudo, que não teria sido se pudesse saber o que me aconteceria poucos anos depois. Teria me vingado dos negros antes mesmo que tudo acontecesse, apenas para ter certeza de tê-los punido o suficiente pelas minhas dores. Esse, porém, é um assunto para mais tarde.
O que deves saber do referido ano é que eu acabara de me formar, estudara as ciências contábeis. Como papai se encontrava doente e os escravos haviam sido libertos ficara difícil para que ele mantivesse os cuidados das finanças. Assumi os negócios. Tentei manter nossas dignidade e condição social tão boas quanto antes. Encontrei no começo algumas dificuldades, mas me saí bem. Conheci muita gente, velhos conhecidos de meu pai - fazendeiros, ex-senhores de escravos e também muitos comerciantes. Apesar de não termos, naquela época, muitas terras, papai era um ótimo negociador, sempre conseguia bons preços compradores de tudo que produzíamos.
Fiz importantes amizades; mostrei-me um homem inteligente, culto e maduro, apesar de ainda jovem. Tinha tino para negócios. Era também bem-apessoado, como costumava dizer Dona Gertrudes - uma negra que desde sempre trabalhara para mamãe e continuara mesmo depois da abolição; era praticamente da família -, falava que não entendia um rapaz tão bem-apessoado como eu não ter ainda conseguido uma prenda. Talvez estivesse certa. Não tardou muito para os velhos amigos da família demonstrarem interesse em ver-me enamorado de suas filhas moças. Alguns deles chegavam a torcer os bigodes ao falar ao outro que sua própria filha era o melhor partido, apenas no intuito de me impressionar.
Perdoem-me pela prolixidade. Detive-me a contar muito sobre mim e minhas histórias que esqueci-me de porque estou aqui e, principalmente, de porque estás aqui. Não queres saber da vida de trabalho desse que vos fala. Anseias por aquilo que até hoje escondi. Desejas penetrar à minha alma nos seus pontos de maior sordidez. Sei que não admitirás, leitor. Tua vontade de se fazer bom aos olhos dos outros é mais forte que tua curiosidade, ainda que essa última te consuma por dentro. Mas eu sei leitor, sou tão humano quanto tu. Tão hipócrita também.
Vamos direto ao que realmente importa daquele ano. Foi numa tarde de primavera, mais precisamente o calendário contava os vinte e oito dias do mês de setembro. A filha de João Moreira, conhecido de meu pai de longa data - que, sabendo que eu estava formado e fazia um bom trabalho com as finanças da família, a pediu que viesse ter a mim; precisava de meus serviços -, bateu na porta de casa. Gertrudes estava ocupada ajudando mamãe em seus afazeres; fui eu mesmo atender ao chamado.
Há muito não a via. Quando a conheci nem era moça ainda, brincava de bonecas. Confesso que espantei-me. Ela não era mais aquela menina com voz estridente que eu conhecera outrora. Era uma bela mulher. Tinha cabelos longos, castanhos escuros e ondulados, desciam abaixo dos ombros, a pele clara, mas queimada de sol, olhos negros, como uma pedra ônix, lábios carnudos, me hipnotizaram – tive vontade de senti-los junto aos meus. Precisou repetir mais de uma vez o que viera me dizer para que eu a compreendesse.
Acredito que tenha percebido meu desconcerto, pois, depois de dizer-me o que lhe pedira o pai, já de costas para partir, virou o rosto em minha direção e sorriu.
Acredito que tenha percebido meu desconcerto, pois, depois de dizer-me o que lhe pedira o pai, já de costas para partir, virou o rosto em minha direção e sorriu.
Aquela boca, aqueles olhos, aquele sorriso me tiraram a concentração pelo resto do dia. Imaginava-me tomando-a nos braços e trazendo-a junto a mim; ansiava por sentir o toque dos seus lábios. Lábios que me roubaram o sono; os mesmos que desejei durante toda a noite.
No dia seguinte, nem bem amanhecera, saí. Fui até a casa de João Moreira. Fui falar-lhe pessoalmente sobre o trabalho que gostaria que eu fizesse. No caminho, parei. Tomei um café. Tive um dedo de prosa com alguns conhecidos e continuei. Não eram ainda nove horas e eu já estava lá. Bati à porta; fui atendido. Uma senhora negra, roliça, já com seus cinquenta e tantos anos, foi quem abriu. Era Zulmira, que assim como Gertrudes era para mamãe, ela era para a senhora Moreira, também como se fosse parte da família.
- O Sr. Moreira está?
- Está.
- Poderia chamá-lo? Diga-lhe que é José de Azevedo, filho de Joaquim de Azevedo, seu velho conhecido. Vim falar-lhe sobre o serviço que sua filha foi-me requisitar ontem, em seu nome.
- Pois só um momento, Sr. Azevedo.
Ela entrou, foi balançando aquelas grandes ancas. Voltou em alguns momentos e disse-me que o senhor João me aguardava.
Eu entrei e fui falar-lhe. Enquanto andava pelos cômodos e longos corredores procurei com os olhos, pela casa toda, por Anita, – sim, esse era o nome daquela que me roubara o sono – mas ela não estava. Senti-me desconfortável. Não tinha nada mais para dizer do que aquilo já pedira a filha que lhe dissesse. Tudo aquilo não passava de uma desculpa para poder vê-la novamente. Todavia, ela tinha ido à feira com a mãe. Demorar-se-iam um pouco, foi o que me disse o Sr. Moreira.
Falei-lhe pouco. Não muito mais do que ele já sabia. Inventei um compromisso para não aceitar o café que me oferecera e quis partir. Levantei-me, despedi-me, peguei o chapéu e saí. Disse que voltaria outra hora para combinarmos o trabalho e o preço. Ele ficou agradecido com minha visita, falou que não esperava que eu fosse tão cedo até lá. Confessou ter sentido em mim bastante responsabilidade, que acreditava ter escolhido a pessoa ideal para o trabalho.
Nessa hora me senti culpado. Não fosse sua filha ter ido me falar eu me demoraria pouco menos que uma semana para atender-lhe o chamado. Contudo, a culpa não durou muito. Aliás, durou poucos segundos. Desapareceu instantaneamente quando, saindo pelo portão, dei de cara a Sra. Moreira e Anita. Cumprimentei-as. A mãe foi gentil, mas a garota foi um pouco seca. Timidez, provavelmente. Penso isso porque, logo que conseguiu deixar que a mãe ficasse um só passo a frente, ela se virou e novamente me sorriu.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Confissões de um Pecador
Quero o que é funesto, o que é mórbido
Perco-me em pensamentos sórdidos
Tenho sede do sangue que nas veias corre
Do sangue que do corpo escorre
Encanta-me o que morre, o morto, a morte
A palidez fúnebre de um cadáver à própria sorte
Hoje me cobram um alto preço
Pago pelas minhas dívidas
Com não menos que minha própria vida
Mas sou produto do que me fizeram
Quando me rasgaram a carne, e me sangraram as vísceras
Roubaram minha alma, me assombraram a mente
Contudo, se riem hipócritas enquanto pereço
Aqueles que me criaram
Os mesmos que a mim condenaram
Tiram, tão vil e dolorosamente
Desse ingênuo povo inocente
Tantas vidas quanto esse pobre demente
Perco-me em pensamentos sórdidos
Tenho sede do sangue que nas veias corre
Do sangue que do corpo escorre
Encanta-me o que morre, o morto, a morte
A palidez fúnebre de um cadáver à própria sorte
Hoje me cobram um alto preço
Pago pelas minhas dívidas
Com não menos que minha própria vida
Mas sou produto do que me fizeram
Quando me rasgaram a carne, e me sangraram as vísceras
Roubaram minha alma, me assombraram a mente
Contudo, se riem hipócritas enquanto pereço
Aqueles que me criaram
Os mesmos que a mim condenaram
Tiram, tão vil e dolorosamente
Desse ingênuo povo inocente
Tantas vidas quanto esse pobre demente
Fragmentos Pt. II
- Você já amou alguém?
- Se nunca tivesse amado, talvez eu estivesse feliz agora...
- Você seria capaz de me amar?
- Não sei...
(Silêncio)
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Amar é...
Me deparei hoje com a seguinte frase, escrita num travesseiro: “Amar é deixar que ela esquente os pés gelados em você”.
Isso me fez pensar em todas as vezes que eu amei, ou, ao menos, pensei tê-lo feito. Não que eu não tenha sentido, muito pelo contrário. Senti – muito e fortemente. Um sentimento tão intenso e voraz que, por mais de uma vez, me levou a fazer loucuras. Mas isso não é amor. O amor não é esse sentimento avassalador que nos consome por dentro. Ele está nas pequenas coisas, nos menores detalhes. Está numa palavra não dita, mas sentida, em olhares cheios de significados, em sorrisos singelos, em momentos tão simples, como os daquela frase. Momentos que, para mim, quase sempre passaram despercebidos.
Dizem que o amor dura para sempre e que, por mais que tempo passe, sempre haverá uma pequena chama que se arderá, nem que seja um pouco, quando se deparar novamente com a pessoa outrora amada. Porém, parece que, em mim, essas chamas sempre se apagaram. Nunca me peguei com um sorriso bobo por causa de uma lembrança, jamais senti vontade de voltar no tempo e reviver algo, tudo se tornou passado.
Talvez eu nunca tenha vivido um amor. Talvez eu nunca tenha sabido amar. E por isso, todas as vezes que pensei tê-lo feito, eles chegaram a um final. Eram apenas paixões.
Não sei se algum dia viverei um amor de fato, muitas pessoas passam a vida inteira sem tê-lo experienciado. Contudo, se eu vier a ser acometido desse sentimento, eu apenas espero “Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure”.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
O Sonho
Os dois dividiam a cama de casal - dormiam. Ela virada para o lado esquerdo e ele roncando do lado direito. De súbito, ela despertou. Tinha um sorriso no rosto e um brilho nos olhos como há muito não se via.
- Amor? Disse ela sacudindo-o.
Ele até ouviu, mas continuou quieto. Talvez ela desistisse.
- Amor? Insistiu a esposa.
- Hmm...
- Amor, eu tive um sonho...
- Que bom, querida. - Disse o marido, interrompendo-a – Agora me deixe voltar pro meu.
- Mas amor, foi um sonho tão lindo! – Puxou-o para que ele virasse para ela.
- Não pode deixar para me contar amanhã de manhã?
- Mas é que eu fiquei tão eufórica!
- Tá bom... O que foi?
- Sonhei que estávamos casados, juntos...
- Mas nós estamos, meu bem. – Interrompeu-a novamente.
- Só que no sonho você me chamava de “minha” e me olhava como na primeira vez. – Disse tentando manter o sorriso apesar do semblante que ficara triste.
- Que bonito, meu bem. Agora volte a dormir. Amanhã conversamos mais.
Disse isso, beijou a esposa na testa, virou-se para o seu lado e logo voltou a roncar. Ela continuou lá, os olhos abertos, molhados.
As horas se passaram e ele despertou. Virou-se para abraçá-la, porém, o lugar dela estava vazio.
O marido se levantou e chamou:
- Cadê meu amorzinho?
Silêncio...
- Querida?
Ninguém respondeu.
Confuso ele começou a procurá-la. Foi até o banheiro e nada. Andou pela casa e nem notícia. Voltou para o quarto e viu que as portas do guarda-roupas estavam abertas. O interior dele vazio, ou quase. Havia apenas um pedaço de papel, um bilhete. Tinha um escrito, um pouco borrado pelas lágrimas que nele pingaram, que dizia:
“Amanhã de manhã pode ser tarde demais...”
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
(Des)Ilusão
Amo-te cada dia mais
Quero-te sem conhecer teu rosto
Desejo-te com tamanho gosto
Dos meus pensamentos não sais
Mas onde está tua presença
Senão na tua indiferença?
Que importância faz?
Meu mais puro sentimento
Minhas palavras, meu acalento
Já não te encantam mais
Onde estou eu, no entanto
Senão amargurado em meu próprio pranto?
Eu, que te amo só
Abandonado ao relento
O que sinto jogado ao vento
Como se fosse pó
De que adianta amar-te, oferecer-te o meu carinho
Se insistes em aqui deixar-me a amar sozinho?
domingo, 24 de outubro de 2010
Saudades
Era uma tarde cinza, chovia e ventava muito. Ele veio correndo pela areia da praia; estava só, parecia aflito, desesperado. Ajoelhou-se e começou a procurar pelo pingente. O perdera naquela manhã. As suas lágrimas se misturavam às gotas de chuva que caíam em seu rosto. Tinha medo, muito medo. Ela dissera que o amaria enquanto ele guardasse aquela joia. Não queria perdê-la. Sequer conseguia pensar nisso. Não poderia tolerar aquela dor.
Passou horas ali, debaixo daquela chuva. Seu corpo já estava pesado, quase não aguentava mais. Estava frio. O vento parecia cortar. Seu corpo coberto de areia, as mãos machucadas de tanto cavar. Mas nada daquilo lhe afligia. Continuou procurando. Porém, nada encontrou. Só lhe restava uma alternativa: o mar. Ainda que estivesse em fúria, com as ondas altas e fortes, não fazia diferença. Ignorou todos os riscos e se jogou nas águas. Desafiou aquele gigante. Tudo que importava era encontrar o pingente.
Ele não voltou para a casa naquela tarde.
Dias depois seu corpo foi encontrado. Trazia enrolado em uma das mãos o colar que carregava o pingente.
***
Ela não suportava a solidão. Não tinha um único momento em que não pensasse nele. Não tinha um momento em que não sentisse a sua falta. Olhava para a praia e o imaginava correndo em sua direção, como sempre fazia. Lembrava-se daquele sorriso, que a encantara pela primeira vez no dia em que se conheceram. Sentia um nó na garganta e as lágrimas molhavam seu rosto. Ficava aflita, lhe doía o peito. Não importava quanto tempo passava, aquela dor só lhe consumia mais.
Num dia, como aquele em que o perdeu, sentiu uma grande angústia e correu até a praia. Os gravetos e pedras do caminho feriram seus pés, mas ela sequer sentia. As frias gotas de chuva e o forte vento que quase a derrubavam não foram obstáculos. Precisava continuar, talvez ele estivesse lá.
Correu por toda a areia, chamou por seu nome, gritou. Caiu de joelhos, em prantos, os olhos vermelhos de tanto chorar. Não aguentava mais aquele sentimento. Tinha um pingente, mas não a sua presença. Por que ele fizera aquilo? Ele sempre fora mais importante. A joia era apenas um símbolo do amor que ela sentia. Será que era tão difícil entender isso? Era ele quem importava. Era ele quem ela queria, quem ela amava.
Mas isso já não fazia mais diferença... Tudo que sabia era que não poderia viver sem tê-lo a seu lado. Não entendia nem como tinha sobrevivido até aquele momento. Sobrevivido, claro, porque aquilo não era viver. Sem ele, a vida não tinha sentido. Sem ele, ela não tinha vida.
Levantou a cabeça e olhou para o mar, fitou aquelas grandes ondas. Encarou-as. Talvez ele ainda estivesse perdido por lá. Ou talvez estivesse apenas esperando por ela. Era isso! Ele estava, com certeza, esperando por ela. Sem pensar, correu para as águas, na esperança de encontrá-lo novamente.
Talvez tenha conseguido; daquele momento de delírio, ela nunca mais retornou.
Fim
Fragmentos Pt. I
- Qual é o seu nome?
- Que diferença isso faz?
- Para mim, faz muita.
- Por quê?
- Porque você parece triste.
- E o que isso tem a ver?
- É que eu nunca vi alguém mais triste do que eu.
- E isso te deixa feliz?
- Sim. Porque talvez eu possa te fazer sorrir.
(Silêncio)
sábado, 23 de outubro de 2010
Soneto do (Des)Paraíso
Pois ele sempre fora um homem santo
E vivera em prol do seu Deus louvado
Era, em nome Dele, objetivado
Conquistando, no céu, seu adianto
Porém, sua fé não resolvera tanto
O beato logo morreu. Pro espanto,
Seu corpo, lá no caixão esticado
E, como um anjo, ele fora velado
Consequetemente, não tardou muito
Para que todos daquela cidade
Beatificassem o tal presunto
Mas, em vão, todos os prazeres privados
Para, do morto, a infelicidade
Não existia nenhum outro lado
Indiferença
Passava da meia-noite. O trânsito já não era tão intenso nas ruas, ouvia-se, em intervalos espaçados, o barulho dos carros. As luzes dos postes brilhavam solitárias, iluminando as calçadas vazias. Ninguém ia nem vinha. Dentro do prédio o porteiro cochilava em sua poltrona, os corredores permaneciam escuros, poucos eram os apartamentos do qual vinha algum som, e menos ainda eram as janelas iluminadas.
Um tiro.
As pessoas despertaram, as luzes se acenderam, portas se abriram. Os corredores ficaram movimentados, ecoavam vozes e passos. As sirenes quebravam o silêncio das ruas e os postes não estavam mais sós.
Entretanto, ele continuava lá, deitado no chão da cobertura. Sob o céu estrelado, a luz da Lua iluminava seu rosto, seus olhos. Ele não se abalara com o estouro e não se incomodara com o alvoroço, parecia indiferente. Não lhe importavam as pessoas, não lhe importava o tudo ou o nada, não lhe importava a vida ou a morte. Apenas ficara ali.
Os passos aumentavam, as falas se intensificavam e as sirenes se aproximavam. A calma dera lugar à dúvida, e a dúvida ao desespero.
Num movimento brusco a porta às suas costas se abriu. Olhares assustado miraram-lhe. Pessoas correram na sua direção.
Pela primeira vez lhe davam atenção, lhe questionavam sobre o que sentia, pela primeira vez lhe olhavam com alguma emoção. Pela primeira vez se sentira importante pra alguém. Tudo o que esperara durante toda sua vida acontecia naquele exato momento, mas agora era tarde demais.
A arma que ele trazia nas mãos já havia feito e seu disparo, já sangrava-lhe o peito. O seu corpo tremia, ele sentia frio, suas vistas começavam a escurecer e suas forças se esvaíam. Porém, ainda que sentisse o sangue na garganta, ele esboçou um sorriso e com a voz fraca e trêmula pronunciou suas palavras finais:
- A solidão, agora, já não dói mais...
Fim
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Soneto da Desesperança
Silencio na solidão do pranto
Onde, em vão, busco teu acalanto
Me feres com tuas palavras frias
Dos meus sentimentos desconfias
Por mais que ainda eu te queira tanto
E procure-te todos esses dias
Acometida do desencanto
Todo o meu amor tu repudias
Em confronto a minha sensatez
Teus olhos como se fossem meus
Fito por uma última vez
Os desvias em desconfiança
Então parto sem o teu adeus
Meu coração em desesperança
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Insensibilidade
Ainda que me sangrem as feridas
Insisto em derradeiro vício
Transbordam dos olhos o pranto
Acorrentado ao teu desencanto
Nas noites de um único sonho
Pesadelos de um só alguém
Contemplo-te com suplicantes olhos
Retribui-me com teu desdém
Me calo em meu desalento
A desesperança, o meu descontentamento
Maior que a dor de ver-te partir
Este coração que deixaste em pedaços
Do qual junto os estilhaços
Duvidas que ele outrora foi capaz de sentir
Insisto em derradeiro vício
Transbordam dos olhos o pranto
Acorrentado ao teu desencanto
Nas noites de um único sonho
Pesadelos de um só alguém
Contemplo-te com suplicantes olhos
Retribui-me com teu desdém
Me calo em meu desalento
A desesperança, o meu descontentamento
Maior que a dor de ver-te partir
Este coração que deixaste em pedaços
Do qual junto os estilhaços
Duvidas que ele outrora foi capaz de sentir
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
O Homem do Espelho
Eram seis horas da manhã, ele acabara de abrir os olhos. Ficou alguns minutos olhando fixamente para o nada até criar ânimo para se levantar. Sentou-se, esticou os braços e se levantou. Foi até o banheiro, lavou o rosto, escovou os dentes e voltou para o quarto. Cuidou para que não acordasse a mulher, que estava deitada na cama. Acendeu a luz do abajur, pegou suas roupas no guarda-roupas e se trocou. Vestiu-se com aquela desconfortável camisa que sempre usava no trabalho e aquela gravata apertada. Antes de sair fitou sua mulher com um olhar triste e, com o coração frio a beijou.
– Eu te amo – disse ele.
Ela nem mesmo o ouviu, mas ele tinha cumprido com sua obrigação.
Ele desceu, comeu aquele mesmo pão que a empregada doméstica sempre comprava e preparava para ele da mesma forma todos os dias, tomou o seu café, – forte, com duas colheres de açúcar – como de costume. Pegou o paletó e as chaves do carro e saiu.
Chegou no trabalho. Estavam lá seus colegas, dos quais muitos ele já não suportava ver. Não suportava as mesmas conversas e as mesmas falsidades. Não suportava mais o chefe, que tratava a ele e os outros com desprezo, mas a quem ele sempre devia responder com um sorriso amarelo e um “Está bem, senhor”.
Trabalhou, fazendo aquele mesmo trabalho de sempre que ele nunca gostara, mas era o que ele tinha e o que o sustentava, aquele que propiciava a ele aquela vida cotidiana e rotineira. Não podia reclamar.
Foi almoçar no restaurante de costume e fez um prato semelhante ao de todos os dias. Até mesmo o peso, visto na balança, variava pouco. Terminou de comer, tomou seu café, fumou um cigarro e voltou para a empresa, onde terminou o dia sorrindo, ainda que contrariado, para o chefe e os colegas de trabalho.
Pouco antes das dezenove horas, depois de alguns minutos no trânsito, ele estava novamente em casa. Abriu a porta, pendurou o casaco e as chaves e avisou a mulher da sua chegada. Ela veio e sorriu para ele. Ele sorriu de volta, deu nela um abraço e beijou-lhe o rosto – pois ele sabia que era aquilo que ele devia fazer.
Conversou com a esposa, jantou e assistiu um pouco de televisão. A mulher, como sempre, foi se deitar mais cedo e ele continuou lá por mais algum tempo. Desligou a TV, pegou o jornal que ficava sobre a mesa da sala e subiu as escadas. Ele gostava de ler as notícias no quarto, antes de dormir. Ligava o abajur e lia as tristes e trágicas notícias dos crimes de violência e na política, que serviam para alimentar ainda mais seus pesadelos.
Ao fim das escadas ele tomou o corredor que levava ao quarto. Já estava tão acostumado com aquele caminho que nem precisava acender a luz para se guiar. Contudo, nesta vez ele teve que fazê-lo. Assim que chegou no andar de cima o jornal escorregou de suas mãos e caiu, espalhando algumas das folhas. Ele acendeu a luz e se agachou para poder juntá-las.
Quando se levantou ele viu um espelho ao fundo do corredor, entretanto, não era sua imagem que ele refletia. Então ele se aproximou para ver mais de perto. Fitou o espelho e enxergou através do vidro não o seu reflexo, mas o de um velho decrépito. Um homem sem vontades, ambições ou sonhos. Um velho, de quem o tempo já havia roubado o vigor e as esperanças, e que de tão conformado apenas viveu... sempre em função daqueles que estavam a sua volta, sempre em função dos outros. Um homem sem realizações, sem alegria e sem brilho.
Viu então transbordar daqueles olhos e escorrer sobre aquela face uma lágrima. Uma lágrima que era realmente sua, que escorria daqueles olhos vazios e descrentes que eram de fato dele e que choravam o luto por aquele corpo e por aquela vida que eram, na verdade, os seus.
Fim
( )
Vai, mata-me
Fere-me com tua presença
Tortura-me com tua indiferença
Arranca de mim até a última gota de sensatez
Até a última lágrima
Quando, nem para sustentar meu pranto
Forças eu tiver
Ri, orgulha-te
Dessa tua obra vil
domingo, 26 de setembro de 2010
A Dama da Lua
Era noite de inverno, madrugada fria. Seria possível ouvir o silêncio não fossem as águas que se faziam escutar ao tocar as pedras da margem e a leve brisa que soprava as folhas em seu farfalhar.
Lá estava ele, sentado à orla, perdido em pensamentos, mergulhado em divagações. Vivia seus momentos de solidão. Observava, com um olhar distante, a Lua. E, assim como as águas molhavam dela o reflexo iluminado, as lágrimas molhavam dele o rosto.
Olhou para ela. Um brilho prateado e rodeada de estrelas. Estava cheia. Por mais que ele não acreditasse, e poucas fossem as esperanças, ele desejou... Desejou não mais estar só.
Tão de repente o silêncio se desfez. Por obras do destino ou do acaso ele ouviu uma doce voz lhe sussurrar aos ouvidos. Ele virou-se e a viu. Ela era linda. De uma beleza tão única que ele seria incapaz de descrever. Contudo, nenhuma de suas qualidades seria capaz de se comparar àquele olhar. Olhar que o fascinou, o encantou.
Ela tocou-lhe o rosto. Ternas eram as carícias daquela delicada mão que o tocara. Ele a tomou em seus braços. Em resposta ela beijou-lhe a face e sorriu. Ele olhou-a nos – olhos que diziam mais do que quaisquer palavras. Ela então, lentamente, os fechou e tocou seus lábios nos dele.
Sem dizer uma só palavra, ela se foi.
A Lua havia atendido o seu pedido.
No fim da noite ele foi incapaz de fechar os olhos. Desejava novamente vê-la, tomá-la em seus braços, beijá-la. Ainda que acordado, sonhou com ela. Ela roubava-lhe os sonhos e os pensamentos.
No outro dia o sol nem havia se posto e lá estava ele, esperando – aflito – para vê-la.
Caiu a noite. Outra vez a Lua brilhava cheia em meio ao céu estrelado. Ele estava só. Passavam-se os minutos e as horas. Pouco faltava para o amanhecer e ele continuava só. Ela não viria. Não fazia mais sentido esperar.
Tomado pelo desespero e insensatez, ele maldisse a Lua, a mesma Lua que outrora atendera seus mais sinceros desejos.
– Por que despertaste em mim sentimentos se me deixarias novamente afogar em solidão? Por que és tão vil? Por quê? Por quê...?
Então ao longe ele a viu. Ela caminhava em sua direção. Das lágrimas se fez o sorriso.
Ele correu para abraçá-la, mas ela tinha um olhar distante e frio. Não lhe disse uma palavra. Ele parou. Sorriu para ela e tentou tocar-lhe a face. Mas, logo que a alcançou, ela se foi. Seus dedos não tocaram nada senão o ar. O sorriso se fez pranto.
Ele caiu de joelhos. De braços abertos para lua, um olhar de súplica. Queria ter a chance – nem que fosse pela última vez – de, ao menos, ouvir a sua voz.
Contudo, de nada adiantaram as súplicas. Ele continuou lá – com seus olhos vermelhos e o rosto molhado – esperando, em vão, por aquilo que já havia chegado a um final.
Fim
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
...
Me perguntaram o que eu faço de melhor...
Poderia dizer que sou um bom ouvinte, mas, algumas vezes, sinto mais vontade de falar do que de ouvir.
Poderia dizer que sou um bom amigo, mas, às vezes, magoo, sem querer, aqueles que estão mais próximos.
Poderia dizer que sou um bom conselheiro, mas que experiências eu tenho para aconselhar alguém?
Poderia pensar em dizer que sou bom em muitas coisas, mas a cada dia me parece que em todas elas eu sempre tenho muito mais aprender.
Talvez eu seja um bom aprendiz... ou não. Por bem mais de uma vez eu insisti em um mesmo erro.
Descobrir o que tenho de melhor talvez seja uma missão para toda a vida.
Poderia dizer que sou um bom ouvinte, mas, algumas vezes, sinto mais vontade de falar do que de ouvir.
Poderia dizer que sou um bom amigo, mas, às vezes, magoo, sem querer, aqueles que estão mais próximos.
Poderia dizer que sou um bom conselheiro, mas que experiências eu tenho para aconselhar alguém?
Poderia pensar em dizer que sou bom em muitas coisas, mas a cada dia me parece que em todas elas eu sempre tenho muito mais aprender.
Talvez eu seja um bom aprendiz... ou não. Por bem mais de uma vez eu insisti em um mesmo erro.
Descobrir o que tenho de melhor talvez seja uma missão para toda a vida.
domingo, 19 de setembro de 2010
Noite Rubra
Como de costume, ele caminha sozinho pela noite. Já havia algum tempo que ele se acostumara a ser um homem solitário. Não tinha familiares, amigos ou amores.
Ele apenas andava sem rumo. Esperava as horas passarem. Esperava o dia amanhecer.
Entretanto, aquela não fora uma noite normal. Não como todas as outras. Ao passar perto de um clube ele ouviu uma voz, tão melodiosa e doce que o fez ficar imóvel por alguns instantes apenas para ouvi-la.
Ele ficou ali – em pé, parado na calçada – até que a música terminasse. Aquilo soou tão bem aos seus ouvidos que o fez adentrar ao lugar. Entrou. Procurou uma mesa ao fundo e se sentou. Ele a viu. Era a mais bela criatura que ele já havia visto. Com uma pele clara e cabelos acobreados. Os olhos eram verdes. Ela era tão perfeita quanto ele jamais havia visto em nenhuma tela dos mais consagrados pintores. Nem eles seriam capazes de reproduzir algo tão belo.
Por lá ele permanecer durante horas. Não consumiu nada e não falou com ninguém. Só queria contemplar aquela divina beleza. Pouco antes do amanhecer ele partiu.
Na noite seguinte ele voltou àquele mesmo clube, na esperança de encontrá-la. Ela estava lá. Tão linda quanto na noite anterior. Ele novamente se sentou sozinho ao fundo apenas para assisti-la. Há muito ele não sentia aquela vontade de ver ou estar com alguém. Há muito ele não vivia qualquer tipo de sentimento.
Suas noites agora tinham mais sentido. Ele sempre a acompanhava. Não importava onde ela fosse se apresentar, ele sempre estava presente – sentado, solitário e em silêncio, ao fundo. Não dizia uma única palavra e sempre partia pouco antes do amanhecer.
Ela, – num dia em que terminou mais cedo sua apresentação – antes que ele partisse, foi falar-lhe.
Ele a viu andando em sua direção. Ela era de fato linda. Mais do que parecia, ao longe, no palco.
- Boa noite! – Disse ela com um encantador sorriso no rosto.
- Boa noite!
- Já tem alguns dias que o vejo em meus shows, mas o senhor sempre parte antes do amanhecer. Hoje, que terminamos mais cedo, vim lhe agradecer a presença e saber o seu nome.
- Que rude eu fui, sequer me apresentei. Me desculpe. Meu nome é Jacques. E como devo chamá-la, senhorita?
- Me chamo Christine.
- Um belo nome para uma linda dama.
- Obrigada!
- Ouvi tua voz quando passava perto de um clube há alguns dias. Encantei-me. Parei próximo ao estabelecimento somente para ouvi-la. Então decidi entrar. Quando a vi entendi que uma voz tão bela não poderia vir senão de um anjo.
Ela, com o rosto corado, sorriu.
- Estou longe de ser um anjo.
- Não para mim. – Disse ele tomando-lhe a mão esquerda e nela tocando, lentamente, seus lábios.
Ela se encantou com aquele gesto. Poucos eram os homens que ela conhecia que agiam com tamanha fineza.
- Desculpe-me, mas tenho que partir. – Disse ele olhando para o relógio.
- Nos veremos de novo?
- Não tenhas dúvida. Seguirei tua voz.
Ele beijou-lhe mais uma vez a mão e partiu. Ela ficou lá, parada, apenas se lembrando daquele elegante homem, daquele perfume e daqueles gestos, que inspirariam seus sonhos daquele resto de noite.
Na outra noite ele estava lá novamente. Jamais perdia uma única apresentação dela. Mas, antes que amanhecesse, - o show nem havia terminado – ele partiu. Tudo o que ela pode ver foi a imagem dele deixando o lugar. Seu olhar perdera o brilho naquela madrugada.
Ao fim da apresentação ela recebeu um bilhete.
- De quem é? – Perguntou ela ao garçom que a entregou o pequeno pedaço de papel.
- Foi o senhor que estava sentado naquela mesa ao fundo. – Apontou a mesa.
Ela nem agradeceu. Virou-se, foi até uma parte no palco que ainda estava mais iluminada para ler o bilhete.
“Gostaria de vê-la amanhã, mas não como estrela. A quero como minha companhia. Estarei esperando por você.
Jacques”
Ela leu e sorriu. Estava ansiosa por aquele momento que, pelos indícios, aconteceria mais rápido do que ela imaginava.
No dia seguinte, poucas horas depois do anoitecer, ela chegou. Ele já estava lá, sentado na mesma mesa de sempre. Esperava por ela.
Conversam. Ficaram ali por um tempo. Depois decidiram sair. Caminharam sob a noite e terminaram juntos, na casa de Jacques. Amaram-se durante toda a noite. Mas, faltando pouco mais de uma hora para o amanhecer ele olhou para ela e disse:
- Agora você deve ir. O sol já está quase nascendo. Eu te levo em casa.
Ela não entendia o motivo, porém, como ele sempre partia antes do amanhecer, concordou.
Eles se trocaram e desceram. Saíram da casa dele. Contudo, logo que puseram os pés para fora do jardim que completava a casa, foram abordados por três homens. Dois deles eram altos e fortes. Um com uma jaqueta de couro e o outro com uma camiseta cavada branca com o símbolo da anarquia; ambos traziam pistolas nas cinturas. O terceiro era mais baixo e mais magro, com cabelos curtos e louros e a barba cerrada. Foi ele quem prontamente agarrou Christine e a tirou do alcance de Jacques.
- Então este é seu novo brinquedinho? – Disse o homem que segurava Christine.
- Solte-a, Anton!
- Por que eu faria isso? É um brinquedo tão bonito. – Respondeu com um sorriso sádico.
- Deixe-a ir. Senão...
Antes que pudesse terminar a frase um dos capangas de Anton o atingiu com um soco e imobilizou um de seus braços. O outro veio e segurou seu outro braço e, com um golpe na parte posterior da perna, o fez cair de joelhos.
- Senão o quê? Vai me matar? – Respondeu o sarcástico homem correndo os dedos pelo pescoço de Christine – Você sabe muito bem que tenho nossas leis a meu favor. A vida dela não vale a vida de qualquer um de nós.
Então Anton apertou o pescoço de Christine com força.
- Se você me matar por causa dela você é um homem morto. – Concluiu.
- Deixe-a ir Anton.
- E deixar que só usufrua desse sangue tão doce? – Disse ele lambendo o lado direito do rosto de Christine.
Ela, enojada, cospe-lhe no rosto.
- Solte-me seu pervertido asqueroso.
- Cala a boca, sua vadia! - Responde Anton, atirando-a contra o chão.
Ele a segura pelos cabelos, a levanta, desfere um tapa contra o rosto dela.
- Comporte-se, sua vagabunda!
- Pare, Anton! Não a envolva nisso.
- Não a envolver? Ela já está envolvida, Jacques. Você mesmo se encarregou disso. Agora ela já sabe demais. O melhor a fazer seria matá-la.
Ele, conduzindo-a pelos cabelos, vira o rosto dela para ele. Olha bem para os olhos de Christine e sorri.
- Essa sim é uma boa ideia. – Conclui, sorrindo seu sorriso sarcástico.
- Não faça isso, Anton. – Diz Jacques, completamente aflito.
- Por favor, não! – Implora Christine – Socorro!
- Não adianta chorar, vadiazinha...
Anton, com sua mão direita – como uma garra – ataca o peito dela. Atinge diretamente seu coração. Ela desfalece.
- NÃO! – Grita Jacques.
- O sangue dela é de fato tão doce Jacques! – Diz Anton passando a mão, coberta com o sangue de Christine, na ponta da sua língua.
Jacques, ao ver a cena, entra em um completo frenesi. Com um movimento feroz e rápido ele solta seus braços. Antes que os capangas de Anton tivessem qualquer reação ele, enfurecido, furtas as pistolas que eles traziam na cintura. Apontando-as para a cabeça dos dois brutamontes ele desfere o golpe de misericórdia.
Anton tenta fugir. Começa a correr para longe de Jacques. Entretanto, o último, tomado pelo ódio o alcança. Acerta-o com um golpe pelas costas que o derruba. Depois ele o vira e o levanta do chão segurando-lhe pelo pescoço – estrangulando-o com uma força brutal.
- Se você fizer isso você será um homem morto, Jacques.
Jacques arranca um pedaço de madeira da cerca do jardim e olha, com os olhos em chamas, para Anton.
- Então seremos dois...
Crava então a estaca no peito do maldito assassino e sente o sangue dele escorrendo.
Ele arremessa o corpo de Anton ao chão e desperta de seu frenesi. Olha para o lado e vê – estendido sobre a grama – o corpo de sua amada Christine. Correu até ela e a tomou nos braços.
- Christine, foi tudo minha culpa. Me perdoe...
Ele choraria se tivesse lágrimas, mas não as tinha. Então ele a beijou nos lábios – um beijo de despedida – e a abraçou bem apertado.
Permaneceu ali, abraçado ela. Pouco faltava até o amanhecer. Quando os primeiros raios de sol surgiram o corpo dela foi, lentamente, caindo ao chão, e o dele – como pó – espalhando-se pelo vento.
Fim
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