domingo, 22 de agosto de 2010

De Olhos Vendados

            Era uma tarde fria de inverno. Sua mãe o recebia nos braços pela primeira vez. A alegria nos olhos dela era capaz de fazer até o mais insensível esboçar um sorriso. Ela o abraçou e olhou pra ele com seus olhos cheios de ternura e lágrimas – lágrimas que seriam a única forma de expressar as emoções e o amor que sentia ao ver o seu filho.
– Senhora... – disse a enfermeira lhe chamando a atenção e com um semblante preocupado no rosto.
            Contudo, nada seria capaz de roubar a magia daquele momento. O sorriso que tomava o rosto daquela mãe era tão sincero que, por um momento, quase fez com que a enfermeira esquece o que fazia ali.
            – Pois não. – Respondeu a mulher sorrindo ainda que estivesse muito cansada.
            – Não sei bem como lhe dizer isso...
            – É algum problema com o bebê? – Perguntou a mãe demonstrando um certo desconforto.
            – ...
            A enfermeira olhou pra ela em silêncio por alguns instantes.
            – Meu Deus, o que houve? – Perguntou a mulher à enfermeira, já agoniada.
            – Fizemos alguns exames com o seu filho. Os resultados mostraram que ele tem uma deficiência nos olhos. Seu filho não será capaz de enxergar. Sinto muito...
            As lágrimas alegres deram lugar a lágrimas de tristeza.
            – Poderia ser pior. – Disse a mulher, tentando se conformar. – Não vai ser fácil, mas não será impossível cuidá-lo. Eu o amarei, não importa o que aconteça.
            Abraçou-o junto aos seios e beijou-lhe a testa.
            Ela nunca falhou na sua promessa. Amou-o e muito, sempre. E ele cresceu tendo todo o amparo necessário para minimizar as suas dificuldades. Entretanto, seria insensato negar que o mundo, para ele, era diferente do que era para a maioria das pessoas. A sua maneira de percebê-la estava nos minuciosos detalhes do olfato, tato, paladar e audição.
            Ele aprendeu a entender e viver o mundo do seu jeito. Um mundo no escuro.
            O tempo passou e ele foi crescendo. Vivendo e aproveitando suas habilidades que, de certa forma, compensavam suas limitações. Logo já era adulto. Não foi surpresa se tornar um ilustre gastrônomo - já que, desde criança, gostava de manipular os sabores e desfrutar do seu apurado paladar. Abriu seu próprio restaurante. Começou a se virar sozinho e a conhecer novas pessoas. Dentre elas uma garota de pouco mais de vinte anos – com uma pele macia e uma voz doce – por quem ele se apaixonou.
            Em pouco mais de um ano eles decidiram se casar. Ficaram noivos. Entretanto, essa não era a única boa notícia. Poucos dias após o seu noivado ele recebeu uma ligação do seu médico.
            – Tenho boas notícias. – Disse o médico.
            – O que houve? – Perguntou ele curioso.
            – Foi desenvolvido um processo cirúrgico que seria capaz de lhe fazer enxergar. Ainda está em processo de testes, mas se você quiser se inscrever poderá fazer parte da pesquisa que talvez lhe conceda a visão.
            Aquilo sempre fora o que ele mais sonhara. Sempre ouvia as pessoas descrevendo traços e formas, cores... Ah, as cores. Eram elas que mais lhe chamavam a atenção. Ele sonhava em um dia poder vê-las.
            Ele logo foi atrás e descobriu de que se tratava o método e decidiu participar das pesquisas. Fez tudo o que lhe fora recomendado e em pouco mais de seis meses ele estava pronto para a cirurgia.
             Tanto ele e seus familiares estavam ansiosos e aflitos. Poderia ser um método revolucionário, um grande avanço na medicina. Mas para ele seria ainda mais importante, ele poderia ver o mundo do qual tanto lhe falavam.
            A cirurgia havia sido um sucesso. Bastava ver se os resultados esperados tinham sido alcançados. Então os médicos foram até o quarto para lhe tirar os curativos.
            – Está pronto? – Lhe perguntou o médico.
            – Estou. – Respondeu ele na expectativa.
            – Pode ser que não tenha dado certo. Mas veremos logo. Torça, assim como nós estamos torcendo, para que os resultados sejam positivos.
            – Torço para que isso aconteça desde o dia em que me falaram pela primeira vez da luz e das cores.
            O médico tirou os esparadrapos e começou, calmamente, a retirar as ataduras. Retirou os curativos dos olhos e lhe pediu:
            – Abra os seus olhos, por favor.
            Assim ele fez. A sensação foi ao mesmo tempo estranha e mágica. Era a primeira vez que ele sentia a luz tocar seus olhos. Ele prontamente os fechou novamente. Não estava acostumado com aquilo. Mas insistiu e descobriu que podia ver.
            Olhou para as suas mãos, as moveu diante dos seus olhos e pode ver a mágica no movimento das coisas, nas cores. Olhou para o quarto e depois para o médico – ou na direção do mesmo, que dizia algumas palavras, que ele, extasiado, sequer conseguia ouvir. Viu então o rosto de uma mulher. Levou sua mão até ele e o sentiu. Era o rosto de sua esposa. Ela era linda. Jamais havia visto outra mulher. Mas naquele momento ele teve a certeza de que ela seria a mais linda criatura que ele iria ver. Ele olhou-a profundamente nos olhos e disse:
            – Como você é linda!
            Ela não segurou o choro. As lágrimas desciam pelo seu rosto e se completavam com o sorriso.
            – Ah, meu amor, eu estou tão feliz que tenha dado certo. Eu te amo tanto! – Respondeu ela.
            As lágrimas deslizaram também pelo rosto dele.
            – Obrigado doutor!
            – Não tem o que agradecer. Trabalhamos em conjunto. Nós lhe proporcionamos a visão e você nos deu a chance de avançarmos na nossa tecnologia e ciência. Todos merecemos essa gratificação.
            Tudo havia saído como o esperado. Mas, mesmo assim, ele teve que permanecer no hospital por mais alguns dias. Fizeram todos os exames necessários e ele foi liberado.
            Agora ele estava de fato livre para desfrutar daquelas novas percepções, novas maneiras de ver e compreender tudo que sempre existiu a sua volta. Ele podia contemplar a luz do sol, o brilho das estrelas e as noites de luar. Podia se encantar com as cores e formas que sempre passaram despercebidas para ele. Era um mundo completamente novo. Não havia um dia apenas que ele não fosse a qualquer lugar que tivesse algo novo para ele poder ver, admirar.
            Numa noite de primavera ele convidou sua esposa para irem até o parque e jantarem sob a luz da lua. Eles foram, comeram, brincaram e até dançaram iluminados pelo céu estrelado. Fora completamente deslumbrante. Cada segundo daquela experiência seria capaz de inspirar os mais encantadores poetas.
            Eles voltavam para casa e ele só podia olhar para aqueles lindos olhos e aquele lindo sorriso. Tudo parecia perfeito, mas nem tudo eram flores naquela noite. Enquanto caminhavam um homem, trajando uma calça jeans e um moletom escuro com capuz, puxou-a pelo braço. A segurou forte e arrastou-a para perto dele.
            – Me dê sua carteira! – Exclamou o homem.
            Ele, assustado com aquilo que via, fez um movimento brusco na direção do homem, como se quisesse entender e questioná-lo sobre o que estava havendo. O que seria interpretado como uma reação.
            Ouviu-se um tiro. Passos rápidos se afastando dali. Um corpo caindo ao chão.
            Ele correu na direção dela. A tomou nos braços. Sentiu algo quente molhar as suas mãos. Era a primeira vez que ele via sangue. Então ele a abraçou forte e tentou falar com ela, pedir que fosse forte e dizer que tudo ficaria bem. Mas de nada adiantou. Tudo que se pôde ouvir foi um “Eu te amo!”, numa voz fraca, que se desfalecia.
            Então ele chorou. Maldisse o mundo e a vida. Desejou que nada daquilo tivesse acontecido, ou que tivesse sido ele no lugar dela. Mas isso não foi capaz de evitar que ele tivesse que velar o corpo da mais linda mulher que ele já havia visto – que ele já havia amado.
            No outro dia, ao fim do enterro, ao ver o túmulo ser fechado, ele se desesperou. Começou a chorar e a gritar. Saiu correndo em direção à casa deles. Alguns de seus familiares e amigos o seguiram para evitar que ele fizesse alguma bobagem. Contudo, o seu desespero e sua raiva lhe deram força para correr mais rápido do que pudessem alcançá-lo. Ele queria estar só.
            Os que o seguiram chegaram à casa alguns minutos depois dele. A porta estava aberta. Tudo o que ouviram foi um grito desesperado de dor. Vinha do quarto. Eles correram até lá e o viram. Ele tinha um vestido dela nos braços e as mãos ensanguentadas. No seu rosto escorria – como lágrimas – o sangue que saía dos seus olhos. Era melhor viver nas ilusões da escuridão do que enxergar o mundo real.

Fim

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O Retrato

            Mudara-se para aquela casa há poucos dias. Uma casa antiga, de arquitetura rústica, porém bem construída e bem conservada. Contudo, ele sequer tivera tempo de desfrutá-la. Precisava terminar de organizar as suas coisas.
            Estava separando o que realmente usava daquilo que guardava por razões que ele mesmo desconhecia. Já tinha lhe rendido uma pilha de tranqueiras. 
            Lembrou-se de que havia um porão na casa. Talvez seja melhor guardar essas coisas lá embaixo, ocuparão menos espaço do que aqui em cima, pensou.
            Levantou-se - estava sentado no chão para encaixotar aquilo que levaria para baixo. Foi até a sala de entrada e pegou um molho de chaves que estava na fechadura. Caminhou até a porta do porão. Abriu. Acendeu a luz. Pegou a caixa com as coisas. Desceu.
            O lugar estava quase que completamente vazio, exceto por algo coberto por um pano branco. Ele não sabia o que era aquilo, mas tinha uma certeza: não era dele.
            Abaixou-se e pôs a caixa no chão. Andou até o objeto desconhecido  e puxou lentamente o pano, que escorregou, revelando um quadro. Era a pintura do rosto de uma linda mulher. A dona dos mais lindos olhos que ele jamais havia visto. Olhos que o hipnotizaram, deixaram-no atônito. Por um tempo que ele seria incapaz de contar, apenas contemplou com fascínio o tão belo olhar.
            Depois de um longo período despertou-se de seu transe; recobrou os sentidos. Subiu novamente as escadas. Precisava que terminar de arrumar as coisas. Mas concentra-se de que jeito? Aquela imagem simplesmente não lhe saía da cabeça. Quem era aquela mulher? Se perguntava. O que era aquilo que ele estava sentindo? Parecia loucura...
            Toda aquela explosão de emoções dominara seus pensamentos. Ele parou com tudo o que estava fazendo. Foi até o quarto e se deitou. Precisava refletir um pouco. Ficou lá, de costas na cama, olhando para aquele tento branco e pensando, tentando imaginar quem era ela, ou onde poderia encontrá-la.
            Perdeu-se em seus devaneios e, após alguns instantes, adormeceu. Sonhou... com ela.
            No sonho, a viu – estava tão linda quanto na pintura. Tomou-a pelas mãos e abraçou. Sentiu seu corpo junto ao dela. Tocou aquele rosto de pele macia e deslizou dedos lentamente até que pudesse sentir tão doces lábios. Aproximou sua face da dela e sussurrou algumas palavras em seu ouvido. Fitou-a profundamente nos olhos. O silêncio. Quebrado por um beijo. Um beijo que jamais sairia da sua memória. Um beijo que marcara seu despertar.
            Estava confuso. Tentou adormecer novamente, voltar para aquele sonho. Foi em vão. Então ele desejou vê-la, tocá-la, ou, simplesmente contemplar, frente a frente, aquele fascinante olhar. Mas de que adiantaria? Não passava de um retrato...

Fim

sábado, 14 de agosto de 2010

Melancolia

            Eram dez horas da manhã, ele acabava de acordar. Abriu os olhos ainda sonolento e então observou os poucos raios de sol que adentravam as frestas da janela do quarto. Era um novo dia, trazia novas oportunidades e expectativas, mas, para ele, era somente um sábado como todos os outros.
            Virou-se de lado e viu que estava vazio o lugar de sua mulher. Ela teria, provavelmente, despertado havia algum tempo. Ele se levantou e foi até o banheiro. Não acendeu as luzes, a penumbra era suficiente, ao menos assim ele seria poupado de encarar o seu olhar vazio.
        Lavou o rosto e voltou para o quarto. Desejou estar ali sozinho quanto tempo fosse possível. Estar naquele lugar que seria só seu, onde ele poderia libertar os seus mais obscuros sentimentos. Porém, o silêncio se quebrou com o ranger das dobradiças da porta.
            – Bom dia, meu amor! – disse-lhe a esposa animada e com um belo sorriso nos lábios.
            – Bom dia! – respondeu ele, seco, porém gentil, sorrindo um sorriso amarelo.
            Ele fitou-a nos olhos por alguns instantes. Um olhar tão profundo que poderia penetrar a alma. Então ele aproximou-se dela e a tomou nos braços. Tocou seu rosto ao dela e disse algo que há muito ele não falava:
             Eu te amo!
            Ela sentiu uma chama arder dentro dela, depois sorriu. Ele a beijou. Um beijo como ela jamais havia sentido. Ele tocara os lábios dela como se fosse a última vez que os sentiria junto aos seus.
            Com um olhar frio ele deixou que os seus dedos deslizassem pelo ventre da mulher até que se afastassem dele e atravessou a porta do quarto.
          Ao sair ele foi tocado pelos raios de sol que iluminavam o corredor. Aquilo o incomodara. Ele fechou os olhos e desejou novamente estar no escuro dos seus aposentos, onde ninguém pudesse lhe encontrar. Passou as mãos no rosto para não se perder novamente em pensamentos e desceu até a cozinha. Pegou uma xícara de café e bebeu. Aquele aroma amargo e frio lhe pareceu o mais doce mel.
            Olhou para a varanda e viu o filho. Ele parecia feliz brincando sorridente ao sol. Mas aquela imagem não foi capaz de despertar no homem o menor sentimento. Ele apenas deixou a xícara sobre a mesa e voltou até o quarto. Trocou de roupas e saiu.
            Enquanto andava em direção à porta de saída sua mulher lhe perguntou:
            – O que houve? Aonde você vai?
            – Houve alguns problemas na firma essa semana. Me encarreguei de conferir as contas. Devo me demorar. Portanto, não me espere pro almoço ou sequer pro jantar. Eu como algo na rua.
            Ela só pode ver a imagem dele, de costas, deixando a casa.
            No quintal ele abraçou o filho e beijou-lhe a face. Foi um abraço apertado e um beijo tão doce que fez o menino sorrir.
            – Eu te amo, papai!
            – Também te amo, meu filho!
            Ele foi até a garagem, entrou no carro e saiu. Rodou por horas, sem rumo. Pensou, refletiu, mas não chegou a nenhuma conclusão. Parou num bar, mas não num bar onde costumava ir, num outro qualquer, longe, onde tinha certeza que não veria ninguém conhecido.
            Lá ele entrou e se sentou numa mesa ao fundo, isolada. Não queria falar com ninguém; não queria ver ninguém. Tudo que ele queria era um momento para estar só consigo mesmo. Pediu uma garrafa de uísque e um copo. Ficou lá até terminar a última dose da garrafa. Ao sair pagou pela bebida mais do que ela custava e não deu a mínima quando o dono do recinto tentou lhe falar. Apenas saiu.
            Deixou o carro na porta do estabelecimento e saiu para caminhar. Não sabia para onde ir ou sequer onde queria chegar. Ele apenas andou.
            Vagou por horas até o entardecer. Quando o sol estava quase posto ele viu uma construção. Devia ser um prédio de uns quatorze ou quinze andares.
            Vou subir, pensou ele.
            Lá ele estaria só e de brinde teria uma bela vista. Subiu. Olhou para a cidade, onde começavam a se acender as primeiras luzes. Olhou então para o céu. Tentou falar com seu Deus, mas, como de costume, Ele não lhe respondeu. Ele então pensou naquela vida sem sentido. Começou a sorrir e gargalhar, zombava de tudo que vivera até ali.
            Subiu no parapeito e começou a dançar e rodopiar. Viver não fazia mais diferença, e num passo em falso ele viu seu corpo deslizar no ar.

Fim

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A Morte em Preto e Branco



            Ainda jovem a Morte bateu-lhe à porta. Ele não tinha chegado nem mesmo aos seus trinta anos. Não havia vivido o suficiente. Seria injusto morrer ali. Foi então que teve uma ideia. Fitou a Morte nos olhos – se é que aquilo que o encarava com um olhar cadavérico podia ser chamado de olhos - e propôs:
            – Por que não fazemos um jogo? Se você vencer eu lhe entrego a minha vida, mas se eu vencer você me deixa escolher o dia em que morrerei.
            – Tua vida já está nas minhas mãos – retrucou a Morte. De que me valeria vencer-te?
            – Pois faça então as suas regras, contanto que não me tome agora a vida, eu aceito.
            A Morte, com um estalo de dedos, fez surgir na frente do homem um tabuleiro de xadrez. As peças brancas o tinham como rei; e o rei das peças negras era ela, carregando sua foice, afiada e mortal, que já tomara de muitos as vidas e de muitos mais a vontade de viver.
            Tomou então com suas mãos pútridas as peças dos reis e disse:
            – Cada jogada ocorrerá num período de três meses. Para cada peça minha que tu tirares eu te concederei um ano a mais até a minha próxima jogada. Porém, a cada peça que eu tomar de ti levarei comigo alguém a quem tu amas. No fim, se eu vencer-te, todos os sacrifícios terão sido em vão e tomar-te-ei a vida. Entretanto, se eu perder, te oferecerei aquilo a que todos os mortais mais cobiçam, algo pelo qual muitos deram suas vidas... a imortalidade.
            Fascinado, de súbito, respondeu:
            – Eu aceito.
            A Morte lhe fez um pequeno corte na mão esquerda e selou o contrato com seu próprio sangue. Um contrato que jamais poderia ser quebrado e que declarava o início do jogo.
            Era o turno dele de jogar. Assim ele fez, moveu sua primeira peça. Num piscar de olhos a Morte desapareceu, deixando apenas as seguintes palavras: “Três meses”.
            Ele estava atônito e pasmo, mas, ainda sim, alegre. Jamais perderia aquele jogo. Quantos teriam feito o que ele fez? Ele acabara de enganar a morte. A imortalidade era, para ele, tão certa quanto a Morte era para todos os outros.
            Três meses se passaram e ela voltou. Como um vulto na noite ela surgiu. Fez então a sua primeira jogada.
            Assim se seguiu durante os dois primeiros anos. Parecia estar tudo sob controle. Até que ela fez a sua primeira jogada mortal, tomou-lhe o primeiro peão, e levou junto o pai do seu desafiante.
            Agora ele estava confuso. Não sabia o que fazer. Não havia pensado naquelas conseqüências. Três meses não eram o suficiente para ele pensar em uma solução.    Contudo, definitivamente, ele não tinha como voltar atrás, havia selado o contrato com seu próprio sangue. Recompôs-se e reformulou sua estratégia. Só havia um jeito de ganhar tempo. Após três meses fez seu ataque. Teria agora um ano até a próxima jogada de sua rival.
            Ao término do último dia do décimo segundo mês ela voltou. Ele já tinha certeza do que ia acontecer. Sua mãe estava doente. Certamente a jogada dela já estava programada. Ele estava certo, perdeu a segunda peça e derramou lágrimas sobre o túmulo de sua mãe.
            Mais três meses se passaram e era a vez dele jogar. Numa jogada desesperada ele tentou ganhar mais um ano. O fez. Tomou da Morte mais uma peça.
            Nesse meio tempo, foi surpreendido com uma notícia que jamais poderia esperar, sua esposa estava grávida. Ele não contava com aquilo. Essa notícia o deixou ainda mais angustiado. Poderia perder seu próprio filho, sangue do seu próprio sangue.
            Ele estava aflito, cada dia que passava era a contagem regressiva para mais uma jogada dela. Mas ela não lhe tomaria outra peça dessa vez, seria insensato. Ela estava montando sua estratégia para pegá-lo, tomar-lhe peças seria atrasar o próprio jogo. Então ele se acalmou. Ela voltaria, jogaria e ele tomaria dela mais uma peça qualquer e ganharia mais tempo. Dois anos e três meses seriam tempo suficiente para pensar em uma solução.
            Então ao fim de um ano ela veio. Para completo espanto dele ela não seguiu a estratégia. Fez uma jogada completamente absurda apenas para lhe tomar uma peça. Falecia de complicações no parto a esposa.
            A morte não estava jogando para derrubar seu rei. Apenas queria lhe tomar peças e, consequentemente, aqueles a quem ele amava. E o próximo alvo seria, com toda certeza, o seu filho, que acabara de nascer.
            O tempo era curto. Tinha apenas três meses pra decidir o que fazer. De nada adiantaria ganhar mais um ano, pois se ele a deixasse jogar novamente ela lhe tomaria uma outra peça; lhe tomaria outro alguém.
            Durante cada dia desse intervalo ele não conseguiu parar de pensar naquele maldito jogo um segundo sequer. Não dormia e mal conseguia comer. Passava horas e horas com seu filho nos braços imaginando o que estaria por vir.
            Os três meses terminaram. Assim que o relógio marcou meia-noite ela apareceu. Veio com seu sorriso sádico e frio dizendo:
            – Faze tua jogada, meu nobre futuro imortal.
            Ele tinha que fazer a jogada. Naquele instante toda sua vida passou diante dos seus olhos. Se lembrou de todos os momentos que vivera com sua mãe e seu pai. Cada palavra, cada toque, cada beijo, cada segundo que passou junto com sua esposa. Mas o singelo sorriso que esboçara em seu rosto desapareceu quando lhe veio à mente as lembranças de cada funeral. Então lhe veio o rosto do seu filho.
            De que valeria a imortalidade se o preço era estar para o todo só e ver aqueles a quem ele amava perecerem diante dos seus olhos? Ele não queria aquilo. Não queria ter que chorar sobre o túmulo do seu filho – uma criança com toda a vida pela frente – como fizera sobre os túmulos do pai, da mãe e da amada esposa.
            Os seus olhos se encheram de lágrimas e medo. Ele tomou o rei branco nas mãos. Apertou-o fortemente e encarou profundamente a morte.
            - Você venceu! - Disse ele.
            Num átimo de coragem ele deitou o seu rei sobre o tabuleiro, entregando o jogo e também a sua própria vida.

Fim

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Feitiço dos Olhos

Uma busca incessante
O fascínio dos teus olhos
É inútil pois
Sequer sei por onde começar...
Em estar só hei de me contentar
Mas quando, cheia, a Lua reina nos céus
E a negra noite silencia o dia
Em sonhos vens
Trazes consigo...
Uma palavra
Um gesto
Um toque
Um olhar
Encanta-me, hipnotiza-me
Como ninfa em sua divina beleza
Rendo-me e me declaro
Um beijo
Teu beijo!
Num sonho...
Do qual jamais desejei despertar

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Despeço-me

Entrego ao tempo, ainda que relutante
O anseio de amar-te
Sentimentos restam
Mas morre em mim a vontade
O desejo de tê-la ao meu lado
Agora parto
Vê-me partir
Comigo esvai-se, pra sempre
Como sonhos que desmoronam
E ilusões que se findam
A esperança do teu beijo

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Fatalístico

            Com uma moeda em mãos ele se dirigia faceiro até a venda para comprar um caramelo. Mas, surpreendido no caminho por uma mulher de meia idade, parou. Ela pedia em nome de Deus uma moeda que pudesse lhe servir para comprar um alimento para a filha – aquela criança, com pouco menos de um ano de vida, que ela carregava nos braços.
            Aqueles olhos lhe pareceram puros e sinceros – aos seis anos todos pareceriam – e ele crente, como a mãe beata que o criara, não poderia negar àquela senhora a única moeda que tinha para salvar a filha da fome que ele nunca sentira. Ainda mais por um pedido feito em nome do Deus que provia a comida que o fartava todos os dias.
            A mulher pegou a moeda com gosto, sem importar que ele fosse um garotinho. Mas em pagamento tomou-lhe as mão direita e disse:
            – Jovem menino. Por ter me dado essa moeda de bom grado, em nome de Deus, nosso Senhor, lhe revelarei o futuro escrito na palma de sua mão. Muito me alegro em dizer, e espero que assim também faça você ao ouvir-me, que, ainda jovem, contará com a sorte e comprará um bilhete premiado que o fará rico. Será devidamente recompensado por essa humilde quantia que dera a essa cigana.
            O garoto nada disse àquela mulher. Correu ansioso para casa. Não podia esperar que lhe dessem mais uma moeda para poder comprar o seu primeiro bilhete. Aquele que lhe traria a tão estimada sorte, que ele estava fadado a ter.
            Desde então todo o pouco dinheiro que lhe davam ele guardava. Juntava as poucas moedas que ganhava até poder comprar um bilhete, na esperança de que aquele seria o último e lhe daria o tão valoroso prêmio. Contudo, nunca o era. Sempre era obrigado a ter esperança no bilhete seguinte.
            Os anos se contavam e o tão esperado dia nunca chegava. Certa vez, com seus vinte e poucos anos, farto daquilo, decidiu tirar satisfações com o destino. Procurou por toda cidade uma vidente que pudesse lhe dizer por que sua sorte decidira mudar.
            Em um bairro afastado encontrou uma pequena barraca. Foi adentrando sem chamar por ninguém. Pegá-la-ia de surpresa. Não daria ao destino tempo de se preparar para dissimular-se.
            A senhora estava lá, sentada atrás de sua bola de cristal. Ele entrou e foi logo vomitando tudo o que passara e a questionando porque ainda não recebera a recompensa que lhe fora prometida. Ela, numa calma profunda, lhe respondeu:
            – Acalme-se, meu jovem. O que lhe foi prometido ainda haverá de ser seu. O que o destino te reservou será dado ainda. Contudo, é preciso que espere que o tempo chegue. Foi-lhe prometido recebê-lo ainda jovem. Mas por quantos anos ainda haverá de durar a sua juventude?
            Ele acalmou-se e desculpou-se pela sua rudeza. Agradeceu à senhora e pagou-lhe o preço da consulta. Despediu-se dela e dirigiu-se à saída. Mas antes que pudesse fazê-lo ela o chamou:
            – Meu rapaz, o artefato místico – disse, referindo-se à bola de cristal – obriga-me a alertá-lo que, mesmo que afortunado, cuide os automóveis, pois me é revelado um acidente em que você, ainda moço e rico, se despedirá da vida. Digo-lhe ainda que te cuide não só como piloto ou passageiro. A imagem que vejo é obscura. Não posso lhe dizer com certeza o que tem nela.
            Essa fala atacou-lhe como uma punhalada. Talvez fosse o destino querendo se vingar de suas dúvidas e insatisfações. Ou talvez fosse o próprio Deus, Enraivecido com seus pecados. Porém, não importava o que fosse, suas preocupações eram agora com sua vida.  Temia por ela. E não era por menos, ver um automóvel era, para ele, o mesmo que deparar-se com a face da morte.
            Passou cada dia do resto de sua vida evitando aquele tão desgraçado acidente. Sempre dividido entre sair de casa, arriscando-se para buscar o bilhete premiado, ou, aconchegado em seus aposentos, evitar o terrível fim que lhe era aguardado.
            Os anos tomaram-lhe a juventude e o prêmio jamais viera. E mais um dia ele estava lá, estatelado na cama, esperando que por mais uma vez conseguisse enganar o destino e evitar seu trágico final. Morreu à míngua, de velho que era; deitado em sua própria cama, e sem nunca receber um tostão. Talvez o prêmio fosse o preço que o destino havia lhe cobrado pela vida, refletia ele. Mas quanto lhe valera a última? Pois fora ela inteiramente desperdiçada pelas suas crenças banais.

Fim

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Do Mundo como ele é...

            Era um velho, rabugento e carrancudo. Tinha poucos amigos, muitos a vida e o tempo lhe haviam tirado, outros – segundo ele – não mais mereciam ser chamados assim. Somente a um chamava amigo com gosto.
            Já não tinha entusiasmo e poucas coisas ainda lhe despertavam certa admiração. Era completamente descrente de tudo e de todos. “Confiar é tolice”, dizia. “Sentimentos são coisas estúpidas. Foi-se o tempo em que os homens tinham virtude”, concluía – com a fala de quem estava calejado dos tombos que a vida lhe dera. 
            Jurava que jamais voltaria a sentir algo por alguém que não fosse ele mesmo. “Aquele que ama unicamente a si é o que prospera. Pois hoje, vocês haverão de concordar, não se fazem amores como os de antigamente, daqueles em que você podia se entregar e confiar”. Discursava lembrando-se da única vez em que amou. Um amor platônico de uma paixão fulminante que, por ironia do destino, jamais se fez cumprir.
            Mesmo que ela tivesse quinze anos e ele dezesseis juravam amor e lealdade eternas. Faziam planos de se amarem, enamorarem-se, e nunca se separarem um do outro. Mas bastaram poucos meses e ela se mudou para a capital. Não mais trocaram uma única palavra sequer.
            Deitou-se, enamorou-se e até casou-se com outras mulheres; envelheceu; enviuvou-se, sem, entretanto, nunca esquecer aqueles olhos que traziam o único amor em que ele já pode acreditar.
            Contudo o acaso haveria ainda – mesmo que ele estivesse velho e sem ânimo pra surpresas – de lhe pregar uma peça.
            Estava ele lá, preparado mais uma vez para um de seus discursos niilistas, quando a viu. Décadas haviam se passado, mas olhar algum seria capaz de encantá-lo como aquele. Sem dúvida nenhuma, era ela. Ela havia se enviuvado havia alguns meses e, cansada da cidade grande, decidiu voltar para o interior.
            Mesmo que no fim da vida os céus haviam resolvido lhe dar uma chance. Não teria esperado em vão. Talvez a vida não fosse tão sem sentido assim.
            Trocaram olhares, falaram-se e amaram-se. Lamentaram o tempo que perderam e culparam o destino pelas suas infelicidades. Fizeram novas juras e planos de ficarem juntos até o fim da vida.
            Casaram-se. Ele vivia agora a tão sonhada felicidade que só poderia experimentar ao lado de sua amada. Voltara até a acreditar em tudo aquilo de que a vida lhe fizera duvidar.
            Certo dia, porém, ele resolvera voltar mais cedo pra casa para fazer uma surpresa para sua senhora. Levava flores e um belo sorriso no rosto. Contudo, ao abrir a porta, se deparou com ela aos beijos com o único a quem ele tinha convicção de chamar de amigo. A vida lhe pregava mais um golpe.
            Não importava a data, amores seriam sempre amores, homens seriam sempre homens; e o mundo seria sempre cinza.

Fim

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Anseios

Por que sentir?
Seria tão mais fácil não fazê-lo...
Invejo as pedras
Por eras imóveis, mutáveis
Sem derramar uma só lágrima
Sem nunca experimentar
Por uma única vez, a tristeza
Invejo a Lua
Que na escuridão da noite
Nina e encanta
Tão devassa Terra
Sem nenhuma ambição
Quisera eu ser tão indiferente
Mas egoísta que sou
Por trás de cada gesto
Um desejo
Guardado apenas na lembrança
Uma só pergunta me resta:
Por que roubar-me ilusões
Se me ofereceria somente solidão?

domingo, 11 de julho de 2010

Um Conto Alegre

            Ele era um jovem escritor. Tinha um talento nato, que nem mesmo ele acreditava ter. Porém, sua inspiração – afinal todos os artistas precisam de uma – vinham dos seus momentos de tristeza. Talvez porque ele jamais tivera experimentado um sentimento que não fosse esse.
            Certa vez lhe pediram que escrevesse um conto. Não importava o tema, desde que  tivesse um final feliz. Para muitos parecia fácil. Para ele, era a mais árdua das tarefas.
            Começou então sua maratona. Pegou uma folha e se pôs a escrever. Buscou exaustivamente um título. Nada lhe vinha à cabeça. Quaisquer coisas que pensava pareciam não ter sentido. Minutos se passavam. Horas. Ele continuava lá. Caneta em mãos e a folha, que continuava em branco.
             Talvez seja melhor começar pelo texto, pensou.
       Pôs-se a trabalhar. Mas suas ideias pareciam desconexas. Escreveu algumas palavras. Olhou bem pra elas. Não era o que queria. Amassou a folha e a arremessou no cesto de lixo. Pegou outra. Tentou novamente. Outra vez o seu texto parecia mais uma mistura de palavras perdidas do que um conto. Mais uma pro cesto.
            Passaram-se horas. Dias. Semanas. Ele continuava com uma folha em branco e, agora, imerso em um mar de bolinhas de papel. Não queria desistir, mas já não aguentava mais.
            Contudo, num ímpeto, fora acometido de um momento de inspiração. Abaixou a cabeça  e começou a escrever. Não parou até que estava terminado. Pronto!
            Havia concluído sua obra. Um conto que não terminava em tristeza ou lágrimas. Um conto dedicado à felicidade:
            “Era uma vez a felicidade... Fim” – Nada mais poderia escrever sobre algo que desconhecia. Sobre um sentimento que jamais sentira.

Fim

Terrores Noturnos

A lua toca os céus no seu mais alto ponto
A noite invade o quarto
Abrem-se as fendas do mais profundo abismo
Aquele trancado em meu peito
Preenchido pelo vazio
Emergem dele, envoltos em trevas, os demônios
Habitantes dos mais obscuros trechos da minha mente
Sedentos por lágrimas
Famintos pela dor
Indolentes devoram minh'alma
Torturando-me com lembranças do que jamais vivi
Martirizando-me com arrependimentos do que jamais fiz
Deixam pra trás um único sentimento
Solidão
Que prolonga-se, incessantemente, até o amanhecer
Quando o sol faz esboçar um falso sorriso
Que dissimula e ofusca o desespero
Trazido pelo silêncio da noite

terça-feira, 29 de junho de 2010

Asas do Tempo

            Quando ele abriu os olhos pela primeira vez, aquela foi a primeira imagem que viu. Um rosto delicado, de pele pálida, com seus cabelos dourados e longos, e seus olhos azuis, escurecidos pelas sombras das asas que se abriam em suas costas, trazendo nas mãos uma ampulheta, que deixava cair o seu primeiro grão de areia.
            Tinha acabado de ser concebido. Sentia o mundo pela primeira vez. Mas, antes mesmo de sua mãe tomá-lo em seus braços, ele o viu. Aquele ser angelical que o acompanharia durante toda sua vida.
            A primeira vem em que conseguiu desofuscar a imagem do mundo ao seu redor, foi o anjo quem tirou a venda de seus olhos. Quando deu seu primeiro passo – com suas próprias pernas – foi o anjo quem segurou suas mãos e deu forças para que ele fosse capaz de fazê-lo. Ao dizer sua primeira palavra, foi o anjo quem lhe proporcionou a linguagem. Foi o anjo quem ousou secar suas primeiras lágrimas de tristeza. E, na primeira vez em que se feriu, foi o anjo quem fechou aquela ferida – que parecia nunca mais cicatrizar.
            Em cada momento, em cada passo, em cada escolha, aquele anjo sempre o acompanhara. Ensinara-lhe tudo o que ele sabia. Contudo, em troca de tudo que lhe proporcionava ele haveria de lhe cobrar um preço. Por cada dádiva, por cada oportunidade, por cada conhecimento ele lhe tomava algo.
            Primeiro ele tomou-lhe a inocência. Ele vivia agora pelo certo e o errado. Era obrigado a assistir às atrocidades do mundo.
            Roubou-lhe depois as fantasias. Não era mais permitido sonhar. Era obrigado a viver aquela dura realidade, com preocupações e sentimentos que jamais tivera outrora.
            Aos poucos usurpou-lhe o vigor. Ele já não se sentia como antes. Seu próprio corpo parecia um fardo.
            Começou por fim a tirar aqueles que ele amava. Levando-os, friamente, um a um, embora de sua vida.
            Por mais que ele tentasse, nunca conseguiria alcançar o anjo que parecia sempre saber o que estava por vir. A criatura celestial voava sempre à sua frente, sem jamais lhe permitir ver o futuro. Então ele ajoelhou-se diante dele, derramando lágrimas de desespero e dor – que carregavam todos os sentimentos de seu coração dilacerado – e implorou que o deixasse voltar atrás, que começasse tudo de novo. Mas, na sua frieza divina, o anjo lhe disse “Não”. E, ele ficou lá, solitário, de mãos atadas diante de seu passado, apenas revivendo suas lamentações e melancolias.
            O anjo então tomou-lhe as batidas do coração. Como da primeira vez, a única imagem diante de seus olhos era daquele rosto andrógeno e suas asas abertas. Que, fitando-o com uma serenidade profunda, trazia nas mãos a ampulheta, da qual caía o último grão de areia.

Fim

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Dualidade

Amor, sentimento vil e cruel
Me dilacera, desespera...
Me joga de joelhos
humilha, retalha, sufoca
Ora odeio tal sentimento tão abstrato
Ora me entrego sem resistir a teus encantos
Quisera eu jamais amar
Mas esse fogo arde em meu peito
Me corrói por inteiro
Vontade de dormir e não mais acordar
Não mais sentir tão avassaladora dor
Mas rendo-me a tuas torturas
Na esperança de um dia...
Voltar a amar

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Garota Dos Sonhos

            Ela estava triste. Sentia-se só. Seus dias passavam como um vazio infinito. Vivia somente das lembranças, dos restos de um sentimento acabado. Sentimento que se extinguira como uma chama quando termina de queimar. Mas, ainda sim, ela insistia em alimentá-lo, mesmo que isso só lhe trouxesse lágrimas e dor. Esperava que, como mágica, aquele fogo voltasse a brilhar. Contudo, isso só criava falsas esperanças. Ilusões que não eram capazes de acalentar seu pobre coração.
            Porém, numa noite fria, com o céu estrelado e as ruas iluminadas pela luz da lua, a outra veio. Voltou como se nunca tivesse partido. Como se os sentimentos jamais tivessem deixado de existir, ou sequer mudado. Estava tão linda quanto jamais estivera outrora.
            Um único instante bastou para que as lágrimas da primeira dessem lugar a um sorriso. Um sorriso tão sincero que podia se ver nele todo amor que ela vivera em silêncio até aquele momento.
            A outra não disse nada. Não precisava. A simetria era perfeita. Se completavam. Apenas tomou a primeira pela mão e a puxou. Correram sob o céu. Rodopiando-se sob a luz das estrelas e dançando sob o luar.
            Era tudo perfeito. Como num sonho. Se a primeira pudesse parar o tempo ali ela o faria. Poderia viver aquele momento para sempre. Não precisava de mais nada. Sua felicidade parecia completa.
            Contudo, a outra havia guardado para o fim uma surpresa. Num movimento súbito ela surpreendeu a primeira com um beijo. O beijo mais doce que ela já havia ganhado.
            Raiava o dia. A noite parecia ter passado num instante. Ela abriu então os olhos. Tudo não passava, mesmo, de um sonho. Despertara-se para um novo dia de solidão. Um dia vazio e nublado. Com nuvens tão pesadas e cinzas quanto a realidade que ela insistia em não querer viver.





Fim

domingo, 13 de junho de 2010

...

Os dias passam
Esvaem-se as areias do tempo
Perdura somente a solidão
Cada dia mais próximo do fim
Perdido numa busca incessante
Vagando sem rumo
Percorrendo sempre um mesmo caminho
Sem esperanças de encontrar um final

O Menino Que Tinha Medo de Nada

            Um garotinho destemido. Nunca havia demonstrado medo de uma coisa sequer. Quaisquer coisas que pudessem causar calafrios e assombros nos mais audazes, para ele eram simplesmente normais.
            As pessoas não se conformavam com isso. Não acreditavam nele. Vivam tentando lhe causar medo. Mas, tudo que faziam era completamente ignorado por ele. Provando sempre que coisa alguma lhe causava espanto.
            Certa vez um grupo de colegas dele teve uma ideia. Era um plano que não iria falhar. Conseguiriam fazê-lo temer.
            Pegaram-no e levaram-no para uma casa abandonada, dizendo que ele não teria coragem de entrar.
            - Essa casa foi de um casal. Tanto o marido quanto a mulher foram encontrados mortos. Disseram que foi suicídio. Mas, alguns dizem que eles venderam suas almas ao diabo. – diziam eles, tentando amedrontá-lo.
            Entretanto, o menino não acreditava naquelas coisas. Aliás, não acreditava em nada. Aquela casa era para ele uma simples construção em ruínas. Mas, isso não estragava o plano. Não queriam que ele ficasse intimidado de entrar na casa. Queriam sim que ele entrasse lá. E, ele entrou.
            Começaram a caminhar pela casa. O menino na frente e o grupo atrás dele. Percorreram toda a casa. O menino, calado, se aventurava por todos os cômodos. Deixaram o quarto por último. O quarto onde o casal havia sido encontrado morto.
            - Lá está o quarto. – disse um dos garotos do grupo.
            - Nem mesmo você teria coragem de entrar lá. – completou um segundo.
            Ele continuou andando em direção ao quarto e entrou.
            Pronto! O plano seguira perfeitamente. Assim que o destemido garotinho entrou sozinho no quarto os outros meninos correram, fecharam a porta e trancaram-na.
            - Só o deixaremos sair daí quando você estiver com medo. – disse um dos garotos.
            - Quando você gritar apavorado, implorando para que nós o tiremos daí, nós abriremos a porta. – completou um outro.
            Todavia, o que os garotos não sabiam era que ele tinha medo. Sempre tivera. Não das coisas “normais”, das de que todos tinham medo. Ele não temia cobras, lagartos, fantasmas, monstros, ou sequer a morte. Nada disso lhe causava qualquer desconforto. Contudo, havia uma coisa que lhe roubava o sono todas as noites. Temia a sua finitude. Não importava o fato de morrer. Temia apenas o fim da sua consciência. Se nada houvesse no fim, sua existência acabaria ali, como um monte de matéria inanimada. Tudo que vivera até ali teria sido em vão. Isso lhe assombrava. Era isso que lhe fazia revirar na cama à noite toda e alimentava seus pesadelos. Ele tinha medo do Nada.
            Mesmo assim ele continuou lá no quarto. Não disse uma única palavra. Não fez um único gesto que demonstrasse pavor.
            O grupo de colegas esperou, mas nada aconteceu. Eles saíram da casa, mas ficaram por perto. Talvez o fato de agora estar sozinho o fizesse gritar. Mas, ainda nada. Distraíram-se e começaram a brincar. Em pouco tempo nem se lembravam daquele menino preso no quarto.
            Ele ficara lá. Assombrado pelos seus próprios pensamentos. A cada segundo que passava ele sentia-se mais perto do fim. Passaram-se horas. Dias. O garoto continuava lá. Aos poucos suas vistas começaram a se escurecer. De repente - como num passe de mágica – ele deparou-se com o seu maior medo.

Fim