domingo, 19 de setembro de 2010

Noite Rubra

            Como de costume, ele caminha sozinho pela noite. Já havia algum tempo que ele se acostumara a ser um homem solitário. Não tinha familiares, amigos ou amores.
            Ele apenas andava sem rumo. Esperava as horas passarem. Esperava o dia amanhecer.
            Entretanto, aquela não fora uma noite normal. Não como todas as outras. Ao passar perto de um clube ele ouviu uma voz, tão melodiosa e doce que o fez ficar imóvel por alguns instantes apenas para ouvi-la.
            Ele ficou ali – em pé, parado na calçada – até que a música terminasse. Aquilo soou tão bem aos seus ouvidos que o fez adentrar ao lugar. Entrou. Procurou uma mesa ao fundo e se sentou. Ele a viu. Era a mais bela criatura que ele já havia visto. Com uma pele clara e cabelos acobreados. Os olhos eram verdes. Ela era tão perfeita quanto ele jamais havia visto em nenhuma tela dos mais consagrados pintores. Nem eles seriam capazes de reproduzir algo tão belo.
            Por lá ele permanecer durante horas. Não consumiu nada e não falou com ninguém. Só queria contemplar aquela divina beleza. Pouco antes do amanhecer ele partiu.
             Na noite seguinte ele voltou àquele mesmo clube, na esperança de encontrá-la. Ela estava lá. Tão linda quanto na noite anterior. Ele novamente se sentou sozinho ao fundo apenas para assisti-la. Há muito ele não sentia aquela vontade de ver ou estar com alguém. Há muito ele não vivia qualquer tipo de sentimento.
            Suas noites agora tinham mais sentido. Ele sempre a acompanhava. Não importava onde ela fosse se apresentar, ele sempre estava presente – sentado, solitário e em silêncio, ao fundo. Não dizia uma única palavra e sempre partia pouco antes do amanhecer.
            Ela, – num dia em que terminou mais cedo sua apresentação – antes que ele partisse, foi falar-lhe.
            Ele a viu andando em sua direção. Ela era de fato linda. Mais do que parecia, ao longe, no palco.
            - Boa noite! – Disse ela com um encantador sorriso no rosto.
            - Boa noite!
            - Já tem alguns dias que o vejo em meus shows, mas o senhor sempre parte antes do amanhecer. Hoje, que terminamos mais cedo, vim lhe agradecer a presença e saber o seu nome.
            - Que rude eu fui, sequer me apresentei. Me desculpe. Meu nome é Jacques. E como devo chamá-la, senhorita?
            - Me chamo Christine.
            - Um belo nome para uma linda dama.
            - Obrigada!
            - Ouvi tua voz quando passava perto de um clube há alguns dias. Encantei-me. Parei próximo ao estabelecimento somente para ouvi-la. Então decidi entrar. Quando a vi entendi que uma voz tão bela não poderia vir senão de um anjo.
            Ela, com o rosto corado, sorriu.
            - Estou longe de ser um anjo.
            - Não para mim. – Disse ele tomando-lhe a mão esquerda e nela tocando, lentamente, seus lábios.
            Ela se encantou com aquele gesto. Poucos eram os homens que ela conhecia que agiam com tamanha fineza.
            - Desculpe-me, mas tenho que partir. – Disse ele olhando para o relógio.
            - Nos veremos de novo?
            - Não tenhas dúvida. Seguirei tua voz.
            Ele beijou-lhe mais uma vez a mão e partiu. Ela ficou lá, parada, apenas se lembrando daquele elegante homem, daquele perfume e daqueles gestos, que inspirariam seus sonhos daquele resto de noite.
            Na outra noite ele estava lá novamente. Jamais perdia uma única apresentação dela. Mas, antes que amanhecesse, - o show nem havia terminado – ele partiu. Tudo o que ela pode ver foi a imagem dele deixando o lugar. Seu olhar perdera o brilho naquela madrugada.
            Ao fim da apresentação ela recebeu um bilhete.
            - De quem é? – Perguntou ela ao garçom que a entregou o pequeno pedaço de papel.
            - Foi o senhor que estava sentado naquela mesa ao fundo. – Apontou a mesa.
            Ela nem agradeceu. Virou-se, foi até uma parte no palco que ainda estava mais iluminada para ler o bilhete.

            “Gostaria de vê-la amanhã, mas não como estrela. A quero como minha companhia. Estarei esperando por você.
Jacques”

            Ela leu e sorriu. Estava ansiosa por aquele momento que, pelos indícios, aconteceria mais rápido do que ela imaginava.
            No dia seguinte, poucas horas depois do anoitecer, ela chegou. Ele já estava lá, sentado na mesma mesa de sempre. Esperava por ela.
            Conversam. Ficaram ali por um tempo. Depois decidiram sair. Caminharam sob a noite e terminaram juntos, na casa de Jacques. Amaram-se durante toda a noite. Mas, faltando pouco mais de uma hora para o amanhecer ele olhou para ela e disse:
            - Agora você deve ir. O sol já está quase nascendo. Eu te levo em casa.
            Ela não entendia o motivo, porém, como ele sempre partia antes do amanhecer, concordou.
            Eles se trocaram e desceram. Saíram da casa dele. Contudo, logo que puseram os pés para fora do jardim que completava a casa, foram abordados por três homens. Dois deles eram altos e fortes. Um com uma jaqueta de couro e o outro com uma camiseta cavada branca com o símbolo da anarquia; ambos traziam pistolas nas cinturas. O terceiro era mais baixo e mais magro, com cabelos curtos e louros e a barba cerrada. Foi ele quem prontamente agarrou Christine e a tirou do alcance de Jacques.
            - Então este é seu novo brinquedinho? – Disse o homem que segurava Christine.
            - Solte-a, Anton!
            - Por que eu faria isso? É um brinquedo tão bonito. – Respondeu com um sorriso sádico.
            - Deixe-a ir. Senão...
            Antes que pudesse terminar a frase um dos capangas de Anton o atingiu com um soco e imobilizou um de seus braços. O outro veio e segurou seu outro braço e, com um golpe na parte posterior da perna, o fez cair de joelhos.
            - Senão o quê? Vai me matar? – Respondeu o sarcástico homem correndo os dedos pelo pescoço de Christine – Você sabe muito bem que tenho nossas leis a meu favor. A vida dela não vale a vida de qualquer um de nós.
            Então Anton apertou o pescoço de Christine com força.
            - Se você me matar por causa dela você é um homem morto. – Concluiu.
            - Deixe-a ir Anton.
            - E deixar que só usufrua desse sangue tão doce? – Disse ele lambendo o lado direito do rosto de Christine.
            Ela, enojada, cospe-lhe no rosto.
            - Solte-me seu pervertido asqueroso.
            - Cala a boca, sua vadia! - Responde Anton, atirando-a contra o chão.
            Ele a segura pelos cabelos, a levanta, desfere um tapa contra o rosto dela.
            - Comporte-se, sua vagabunda!
            - Pare, Anton! Não a envolva nisso.
            - Não a envolver? Ela já está envolvida, Jacques. Você mesmo se encarregou disso. Agora ela já sabe demais. O melhor a fazer seria matá-la.
            Ele, conduzindo-a pelos cabelos, vira o rosto dela para ele. Olha bem para os olhos de Christine e sorri.
            - Essa sim é uma boa ideia. – Conclui, sorrindo seu sorriso sarcástico.
            - Não faça isso, Anton. – Diz Jacques, completamente aflito.
            - Por favor, não! – Implora Christine – Socorro!
            - Não adianta chorar, vadiazinha...
            Anton, com sua mão direita – como uma garra – ataca o peito dela. Atinge diretamente seu coração. Ela desfalece.
            - NÃO! – Grita Jacques.
            - O sangue dela é de fato tão doce Jacques! – Diz Anton passando a mão, coberta com o sangue de Christine,  na ponta da sua língua.
            Jacques, ao ver a cena, entra em um completo frenesi. Com um movimento feroz e rápido ele solta seus braços. Antes que os capangas de Anton tivessem qualquer reação ele, enfurecido, furtas as pistolas que eles traziam na cintura. Apontando-as para a cabeça dos dois brutamontes ele desfere o golpe de misericórdia.
            Anton tenta fugir. Começa a correr para longe de Jacques. Entretanto, o último, tomado pelo ódio o alcança. Acerta-o com um golpe pelas costas que o derruba. Depois ele o vira e o levanta do chão segurando-lhe pelo pescoço – estrangulando-o com uma força brutal.
            - Se você fizer isso você será um homem morto, Jacques.
            Jacques arranca um pedaço de madeira da cerca do jardim e olha, com os olhos em chamas, para Anton.
            - Então seremos dois...
            Crava então a estaca no peito do maldito assassino e sente o sangue dele escorrendo.
            Ele arremessa o corpo de Anton ao chão e desperta de seu frenesi. Olha para o lado e vê – estendido sobre a grama – o corpo de sua amada Christine. Correu até ela e a tomou nos braços.
            - Christine, foi tudo minha culpa. Me perdoe...
            Ele choraria se tivesse lágrimas, mas não as tinha. Então ele a beijou nos lábios – um beijo de despedida – e a abraçou bem apertado.
            Permaneceu ali, abraçado ela. Pouco faltava até o amanhecer. Quando os primeiros raios de sol surgiram o corpo dela foi, lentamente, caindo ao chão, e o dele – como pó – espalhando-se pelo vento.

Fim

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Desencanto

Sonhei...
Com teu rosto
Que eu jamais havia visto
Com teu toque
Que eu jamais havia sentido
Com teu Beijo
Sonhei...
Perdido em teus encantos
Hipnotizado por tuas palavras
Envolto em tua ternura
Fascinado por teu olhar
Por você me apaixonei... Mas,
Tua distância
Tuas palavras frias
Teu silêncio
Tua indiferença
Fizeram-me descrente
...
Deixei de sonhar
Deixei de acreditar
Numa fria realidade
Meu despertar
Chorei...
Chorei por pensar
Que tudo poderia terminar
Como um sonho,
Que se finda ao despertar

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Persona(s)

            Ele acabara de acordar. Abriu os olhos e pode ver aquele quarto ainda escuro. Virou-se de lado para abraçar a mulher, mas não conseguiu alcançá-la, seu lugar estava vazio. Começou a sentir um cheiro estranho, de sangue. Ele estendeu um dos braços até alcançar o abajur que estava sobre o criado mudo. Acendeu-o. Os lençóis estavam manchados de vermelho. Assustou-se, se levantou da cama e correu até o banheiro para lavar o rosto e ver se estava de fato acordado. Aquilo não era um pesadelo. Tudo o que viu foi seu corpo coberto de sangue.

Um ano antes:

            A esposa abriu a porta do quarto lentamente. Ele estava lá, deitado no escuro e com o rosto molhado de lágrimas.
            - Meu amor, o que houve? – Perguntou ela indo na direção dele para abraçá-lo.
            - Foi tudo minha culpa... – respondeu ele enxugando o rosto com as mãos.
            - Acalme-se, meu bem. Não foi sua culpa.
            - Se eu o tivesse levado comigo nada disso teria acontecido.
            - Mas como você poderia imaginar? Indagou abraçando-o forte e beijando-lhe a o rosto.
            A porta se abriu lentamente, silenciando os dois que estavam abraçados sobre a cama. Ouvia-se apenas o ranger das dobradiças seguido por leves passos que caminhavam na direção deles.
            - Mamãe, por que o papai está chorando? – Perguntou uma garotinha de cerca de cinco anos usando um macacão rosa, que trazia nas mãos uma boneca – Ainda é por causa do maninho? – Completou, enchendo os delicados olhinhos de lágrimas.
            Havia mais de um ano que ocorrera o incidente. A mãe saíra com a filha, fora levá-la ao médico. Ele ficou em casa com o filho mais velho, de quase doze anos. Porém, recebeu uma ligação da espose pedindo que ele fosse buscá-la. Havia começado a chover e não teria como elas voltarem sozinhas.
            - Vamos comigo, filho?
            - Posso ficar? Estou bem no meio do meu jogo novo. – Respondeu o garoto sem sequer desvia os olhos da tela da televisão.
            - Tudo bem, mas cuide-se. Eu volto logo.
            - Ok, pai!
            Ele foi até a garagem, entrou no carro e saiu. A chuva estava realmente ficando forte e o céu cada vez mais escuro. Ele se apressou para encontrá-las antes que ficasse pior.
            Elas o esperavam na porta do consultório médico e, logo que ele chegou, elas entraram no carro. Foram para casa. Em menos de meia hora ele já estava de volta.
            - Meu bem, você deixou o portão da garagem aberto? – Perguntou ela apontando para o mesmo, que não estava completamente fechado. Havia distância para uma passar tranquilamente por ele.
            - Que estranho! Não me lembro de tê-lo parado enquanto fechava. Deve ter emperrado. Mas, como a chuva estava muito forte, eu nem reparei. – Respondeu ele apertando o botão para que o portão se abrisse novamente.
            Ele guardou o carro e tentou fechar o portão, contudo, novamente ele parou no mesmo lugar. Parecia estar, de fato, emperrado. Então ele foi até lá para ver o que tinha acontecido. Quando se aproximou ele viu que havia um toco de madeira impedindo que o portão se fechasse.  Ele agachou e tirou aquilo de lá. O portão se fechou.
            A mulher, que carregando a filha nos braços, já estava entrando em casa, mas parou.
            - O que houve, meu amor?
            Ele, sem dar nenhuma explicação, entrou correndo em casa e chamou pelo filho.
            Havia pegadas de barro na cozinha. Ele as seguiu e viu que estavam por toda a casa. As gavetas e armários da casa estavam revirados.
            - Filho, cadê você? – Gritou ele assustado.
            - O que houve, meu bem? – Perguntou ela, se assustando com o comportamento do marido.
            Ele foi até a sala e viu a televisão e o vídeo-game do filho ligados. Chamou-o novamente e, mais uma vez, ele não respondeu.
            Ele, desesperado, começou a correr pela casa procurando o garoto. Não estava no quarto dele nem no da irmã. Então foi até o seu quarto e da esposa. Lá ele viu uma imagem que ele daria a vida para voltar no tempo e jamais ter que, sequer, imaginá-la. Viu a cena que o assombraria por todos os dias enquanto ele vivesse. Viu o corpo do seu próprio filho estirado sobre a cama.
            - NÃÃÃOOOO!!! MEU FILHO!!! NÃO PODE SER!
            Ele caiu no chão, de joelhos, e começou a chorar desesperadamente. A mulher veio correndo com a filha no colo para ver o que estava acontecendo. Quando chegou na porta e viu o que acontecia ela trouxe o rosto da menina para junto de seu peito - assim ela não veria aquela trágica cena – e chorou vendo o marido com o corpo do filho nos braços.
            - Me perdoe meu filho. A culpa foi toda minha... Eu nunca devia tê-lo deixado sozinho...
            Nada pode ser feito naquele dia para salvar o garoto. Tudo que restava era que a polícia pudesse encontrar o culpado, mas não foi o que aconteceu. O tempo passou e o assassino do filho jamais fora encontrado. Cada dia que passava só fazia aumentar a culpa daquele pai amargurado. Ele chorava dias e noites, quase nunca conseguia dormir. Quando dormia ele acordava desesperado em meio aos seus pesadelos.
            A mulher tentava ajudá-lo. Suprimia sua própria dor para da a ele forças, as últimas que restavam a ela. Entretanto, nada adiantava. Ele estava cada dia pior.
            - Se acalme, minha filha. Não é nada. O papai só está um pouco triste com o sonho que teve, mas já vai passar. – Disse a mulher àquela garotinha vestindo o macacão rosa – Venha aqui. Vamos dar um abraço no papai que, num instante, ele vai estar melhor.
            A menina sorriu, correu e pulou nos braços do pai.
            - Eu amo você, papai!
            Ele usou todas as forças que tinha para tentar esboçar um sorriso. Abraçou as duas e disse:
            - Eu amo vocês! Jamais deixarei que algo ruim lhes aconteça.
            Os três ficaram ali deitados por algum tempo. A garotinha pegou no sono e a mãe aproveitou para levá-la para o quarto dela. Deu-lhe um beijo no rosto e voltou.
            - Querido, eu acho que nós devemos nos mudar daqui. Essa casa não está nos fazendo bem. – Disse ela tomando-o pelas mãos – Acho que devíamos mudar para um outro lugar, uma outra cidade onde as lembranças do que aconteceu não sejam tão constantes. Talvez assim nós consigamos ter mais tempo para nos lembrar das coisas boas que vivemos juntos sem termos que olhar para o local onde tudo aconteceu. Acho que isso te faria bem. Faria bem a todos nós.
            - Talvez você tenha razão. Não há um só canto dessa casa que não me faça lembrar daquele maldito dia... – seus olhos se enchiam de lágrimas novamente.
             Concordaram em se mudar. Prepararam as coisas e, em algumas semanas, - com a ajuda de alguns amigos – se mudaram para uma pequena cidade um pouco distante daquela em que viviam.
            Em poucos dias ela começou a trabalhar como professora numa escola local, a mesma em que a filha começou a estudar. Mas ele, incentivado pela esposa, decidiu não se dedicar ao trabalho por enquanto. Tinham algumas finanças que dariam para algum tempo. Ela achou melhor que ele tirasse um tempo para colocar a cabeça no lugar. Ele aproveitou para fazer algo que sempre tivera vontade, escrever. Porém, sempre ocupado com o trabalho, nunca lhe sobrava tempo para isso, mas agora era hora de um novo começo. Talvez aquilo lhe fizesse bem.
            Ele montou um pequeno escritório em casa. Um lugar só dele, onde ele poderia trabalhar no seu mais novo projeto de vida, seu livro. Lá ele passava horas e horas escrevendo. Se inspirava nas boas lembranças que tivera coma família e o filho para escrever. Sempre que as memórias do incidente lhe vinham aos pensamentos ele segurava o choro e se forçava a pensar em outra coisa para se distrair.
            Voltaram, em pouco tempo, a viver como uma família. Ele não estava mais tão alheio e confuso como passara o último ano. A nova vida estava fazendo bem a todos eles.
            Contudo, alguns meses depois, a mulher e a filha começaram a ficar um pouco distante dele. Elas pareciam cada dia mais secas e ariscas com ele.
            - Meu bem, por que você tem estado tão distante de mim nesses últimos dias?
            Ao ouvir a pergunta ela olhou pra ele – num suspiro – com olhos tristes e profundos e perguntou:
            - Você realmente não se lembra do que aconteceu naquele dia?
            Ela se referia ao dia em que a filha se machucara enquanto passeava com ele no parque. Ela voltara para casa com hematomas por todo o corpo e disse ter caído enquanto corria.
            - Não me lembro. Às vezes me esforço, mas não consigo. Só me lembro de ter sápido com ela. Depois parece que está tudo apagado, escuro. Me recordo, somente, de quando já estávamos em casa.
            - Tudo bem, querido. Vamos esquecer isso.
            - Não, meu bem. Diga. O que está havendo?
            - Não é nada, amor. Só tenho estado um pouco triste nesses últimos dias, mas vai passar.
            Então ela tocou-lhe o rosto com as mãos e beijou seu rosto para acalmá-lo e terminar o assunto. Eles adormeceram.
            Na manhã seguinte ele se levantou mais cedo, preparou o café e levou para ela na cama. A despertou com um beijo. Ela até parecia ter esquecido a tensão do dia anterior. Eles comeram juntos e conversaram.
            - Meu amor, você não gostaria de ler o que eu estou escrevendo?
            - Você está falando sério? – Ela perguntou surpresa – Você disse que não queria que ninguém lesse até que estivesse terminado.
            - Acho que vai ser bom compartilhar isso com você.
            Terminaram de comer e foram até o escritório. Ele deixou que ela se sentasse e ligou o computador. Ela estava ansiosa para ver. Ele mostrou para ela o arquivo e ela abriu. Começou a ler.
            Ela estava com um sorriso no rosto que, subitamente, se desfez. Então ela levou a mão esquerda à frente da boca – numa expressão de espanto – e lágrimas escorreram do seu rosto.
            - Meu amor, o que está acontecendo com você?
            Ele não estava entendendo aquela reação dela, o por que dela estar daquele jeito.
            - O que houve, meu bem?
            - Primeiro aquilo no parque, agora isso...
            - isso o quê?- Perguntou ele correndo para ver o que ela estava vendo na tela do computador.
            Era realmente o livro que ele estava escrevendo. Mas, da primeira até a última página, apenas se repetiam as frases:
           
            “Você deixou o seu filho morrer. A culpa é toda sua. Você é um monstro!”

            Ele não conseguia compreender. Não se lembrava de ter escrito aquilo. Muito pelo contrário. Se lembrava de ter escrito grande parte da história. Procurou por algum outro arquivo no computador em que pudesse estar aquilo de que ele se lembrava ter escrito, mas não encontrou. Se ele escrevera aquilo de onde vinham suas memórias?
            - Querida, - disse ele assustado e com lágrimas descendo pela sua face – eu não me lembro disso. Eu tinha escrito uma história. Eu juro! Você precisa acreditar em mim...
            - Meu amor, você precisa de ajuda. Você, realmente, precisa de ajuda... Você não está bem.
            - Meu bem, - estava nervoso e trêmulo com a pergunta que ia fazer – o que realmente aconteceu aquele dia no parque?
            - Você ficou muito nervoso com a nossa filha quando ela deixou a boneca que ela havia levado para o passeio cair ao chão. Então - dizendo que ela não tinha cuidado com aquilo que era importante para ela – você a agrediu. Ao menos foi  o que ela me disse depois de eu muito insistir para que ela me contasse a verdade.
            - Meu Deus, eu sou um monstro! O que foi que eu fiz?
            - Acalme-se, meu bem. Você só está doente. Precisa se tratar.
            - Não! Eu sou um monstro!
            Então ele saiu correndo de casa, desesperadamente. Ela tentou falar com ele, acalmá-lo, mas foi em vão. Ele saiu maldizendo e amaldiçoando a si mesmo. Correu por um tempo, foi até um rio ali perto. Precisava terminar logo com aquilo. Se jogou no rio.
            Ele acordou. Sentiu o colchão macio sob suas costas e viu o quarto, ainda escuro.
            Que alívio! Pensou. Teria sido tudo um pesadelo. Nada daquilo teria realmente acontecido.
            Ele se virou de lado e tentou abraçar a esposa. Ela não estava lá. Ele sentiu cheiro de sangue, acendeu o abajur e viu o lençol manchado. Foi até o banheiro e viu seu corpo coberto de sangue.
            Ele se desesperou. Não sabia o que estava acontecendo. Será que tudo aquilo que ele pensou estar sonhando tinha, realmente, acontecido? O que ele teria feito com a mulher e a filha? Ele correu até o quarto da menina, mas não encontrou nada. Procurou pela casa toda e elas não estavam. Só restava um lugar para ir, seu escritório.
            Ele foi, lentamente, até a porta e tentou abri-la. Estava trancada. Procurou pelas chaves onde ele costumava guardá-la, porém não as encontrou. Então, num movimento automático, levou a mão ao bolso e retirou de lá um pequeno molho de chaves, onde estava a chave do escritório.
            Ele, trêmulo, colocou a chave no trinco e destrancou a porta. Girou a maçaneta vagarosamente – já esperava o pior – e abriu a porta.
            Os corpos das duas estavam entrelaçados no chão do escritório, como se a mãe estivesse abraçando a filha para protegê-la.
            As paredes do escritório estavam inteiras escritas com sangue. O sangue da sua mulher e da sua filha.  Se repetia uma única palavra:

            “MONSTRO!”

            Ele viu aquela cena e caiu ao chão. Estava atônito. Tremia ainda mais agora.
            - Isso não pode continuar! – Disse pra si mesmo.
            Em cima da escrivaninha estava a faca que ele teria usado para tirar dele mesmo o que de mais valioso ele tinha. Olhou mais uma vez para os corpos delas. Pegou o instrumento cortante, segurou-o com toda a força que tinha e – para punir-se – cravou-o em seu próprio coração. O seu sangue escorreu pelas suas mãos e seu peito. Ainda com os olhos cheios de lágrimas ele pereceu. Entretanto, já era tarde demais para se redimir de seus pecados.

Fim

domingo, 22 de agosto de 2010

De Olhos Vendados

            Era uma tarde fria de inverno. Sua mãe o recebia nos braços pela primeira vez. A alegria nos olhos dela era capaz de fazer até o mais insensível esboçar um sorriso. Ela o abraçou e olhou pra ele com seus olhos cheios de ternura e lágrimas – lágrimas que seriam a única forma de expressar as emoções e o amor que sentia ao ver o seu filho.
– Senhora... – disse a enfermeira lhe chamando a atenção e com um semblante preocupado no rosto.
            Contudo, nada seria capaz de roubar a magia daquele momento. O sorriso que tomava o rosto daquela mãe era tão sincero que, por um momento, quase fez com que a enfermeira esquece o que fazia ali.
            – Pois não. – Respondeu a mulher sorrindo ainda que estivesse muito cansada.
            – Não sei bem como lhe dizer isso...
            – É algum problema com o bebê? – Perguntou a mãe demonstrando um certo desconforto.
            – ...
            A enfermeira olhou pra ela em silêncio por alguns instantes.
            – Meu Deus, o que houve? – Perguntou a mulher à enfermeira, já agoniada.
            – Fizemos alguns exames com o seu filho. Os resultados mostraram que ele tem uma deficiência nos olhos. Seu filho não será capaz de enxergar. Sinto muito...
            As lágrimas alegres deram lugar a lágrimas de tristeza.
            – Poderia ser pior. – Disse a mulher, tentando se conformar. – Não vai ser fácil, mas não será impossível cuidá-lo. Eu o amarei, não importa o que aconteça.
            Abraçou-o junto aos seios e beijou-lhe a testa.
            Ela nunca falhou na sua promessa. Amou-o e muito, sempre. E ele cresceu tendo todo o amparo necessário para minimizar as suas dificuldades. Entretanto, seria insensato negar que o mundo, para ele, era diferente do que era para a maioria das pessoas. A sua maneira de percebê-la estava nos minuciosos detalhes do olfato, tato, paladar e audição.
            Ele aprendeu a entender e viver o mundo do seu jeito. Um mundo no escuro.
            O tempo passou e ele foi crescendo. Vivendo e aproveitando suas habilidades que, de certa forma, compensavam suas limitações. Logo já era adulto. Não foi surpresa se tornar um ilustre gastrônomo - já que, desde criança, gostava de manipular os sabores e desfrutar do seu apurado paladar. Abriu seu próprio restaurante. Começou a se virar sozinho e a conhecer novas pessoas. Dentre elas uma garota de pouco mais de vinte anos – com uma pele macia e uma voz doce – por quem ele se apaixonou.
            Em pouco mais de um ano eles decidiram se casar. Ficaram noivos. Entretanto, essa não era a única boa notícia. Poucos dias após o seu noivado ele recebeu uma ligação do seu médico.
            – Tenho boas notícias. – Disse o médico.
            – O que houve? – Perguntou ele curioso.
            – Foi desenvolvido um processo cirúrgico que seria capaz de lhe fazer enxergar. Ainda está em processo de testes, mas se você quiser se inscrever poderá fazer parte da pesquisa que talvez lhe conceda a visão.
            Aquilo sempre fora o que ele mais sonhara. Sempre ouvia as pessoas descrevendo traços e formas, cores... Ah, as cores. Eram elas que mais lhe chamavam a atenção. Ele sonhava em um dia poder vê-las.
            Ele logo foi atrás e descobriu de que se tratava o método e decidiu participar das pesquisas. Fez tudo o que lhe fora recomendado e em pouco mais de seis meses ele estava pronto para a cirurgia.
             Tanto ele e seus familiares estavam ansiosos e aflitos. Poderia ser um método revolucionário, um grande avanço na medicina. Mas para ele seria ainda mais importante, ele poderia ver o mundo do qual tanto lhe falavam.
            A cirurgia havia sido um sucesso. Bastava ver se os resultados esperados tinham sido alcançados. Então os médicos foram até o quarto para lhe tirar os curativos.
            – Está pronto? – Lhe perguntou o médico.
            – Estou. – Respondeu ele na expectativa.
            – Pode ser que não tenha dado certo. Mas veremos logo. Torça, assim como nós estamos torcendo, para que os resultados sejam positivos.
            – Torço para que isso aconteça desde o dia em que me falaram pela primeira vez da luz e das cores.
            O médico tirou os esparadrapos e começou, calmamente, a retirar as ataduras. Retirou os curativos dos olhos e lhe pediu:
            – Abra os seus olhos, por favor.
            Assim ele fez. A sensação foi ao mesmo tempo estranha e mágica. Era a primeira vez que ele sentia a luz tocar seus olhos. Ele prontamente os fechou novamente. Não estava acostumado com aquilo. Mas insistiu e descobriu que podia ver.
            Olhou para as suas mãos, as moveu diante dos seus olhos e pode ver a mágica no movimento das coisas, nas cores. Olhou para o quarto e depois para o médico – ou na direção do mesmo, que dizia algumas palavras, que ele, extasiado, sequer conseguia ouvir. Viu então o rosto de uma mulher. Levou sua mão até ele e o sentiu. Era o rosto de sua esposa. Ela era linda. Jamais havia visto outra mulher. Mas naquele momento ele teve a certeza de que ela seria a mais linda criatura que ele iria ver. Ele olhou-a profundamente nos olhos e disse:
            – Como você é linda!
            Ela não segurou o choro. As lágrimas desciam pelo seu rosto e se completavam com o sorriso.
            – Ah, meu amor, eu estou tão feliz que tenha dado certo. Eu te amo tanto! – Respondeu ela.
            As lágrimas deslizaram também pelo rosto dele.
            – Obrigado doutor!
            – Não tem o que agradecer. Trabalhamos em conjunto. Nós lhe proporcionamos a visão e você nos deu a chance de avançarmos na nossa tecnologia e ciência. Todos merecemos essa gratificação.
            Tudo havia saído como o esperado. Mas, mesmo assim, ele teve que permanecer no hospital por mais alguns dias. Fizeram todos os exames necessários e ele foi liberado.
            Agora ele estava de fato livre para desfrutar daquelas novas percepções, novas maneiras de ver e compreender tudo que sempre existiu a sua volta. Ele podia contemplar a luz do sol, o brilho das estrelas e as noites de luar. Podia se encantar com as cores e formas que sempre passaram despercebidas para ele. Era um mundo completamente novo. Não havia um dia apenas que ele não fosse a qualquer lugar que tivesse algo novo para ele poder ver, admirar.
            Numa noite de primavera ele convidou sua esposa para irem até o parque e jantarem sob a luz da lua. Eles foram, comeram, brincaram e até dançaram iluminados pelo céu estrelado. Fora completamente deslumbrante. Cada segundo daquela experiência seria capaz de inspirar os mais encantadores poetas.
            Eles voltavam para casa e ele só podia olhar para aqueles lindos olhos e aquele lindo sorriso. Tudo parecia perfeito, mas nem tudo eram flores naquela noite. Enquanto caminhavam um homem, trajando uma calça jeans e um moletom escuro com capuz, puxou-a pelo braço. A segurou forte e arrastou-a para perto dele.
            – Me dê sua carteira! – Exclamou o homem.
            Ele, assustado com aquilo que via, fez um movimento brusco na direção do homem, como se quisesse entender e questioná-lo sobre o que estava havendo. O que seria interpretado como uma reação.
            Ouviu-se um tiro. Passos rápidos se afastando dali. Um corpo caindo ao chão.
            Ele correu na direção dela. A tomou nos braços. Sentiu algo quente molhar as suas mãos. Era a primeira vez que ele via sangue. Então ele a abraçou forte e tentou falar com ela, pedir que fosse forte e dizer que tudo ficaria bem. Mas de nada adiantou. Tudo que se pôde ouvir foi um “Eu te amo!”, numa voz fraca, que se desfalecia.
            Então ele chorou. Maldisse o mundo e a vida. Desejou que nada daquilo tivesse acontecido, ou que tivesse sido ele no lugar dela. Mas isso não foi capaz de evitar que ele tivesse que velar o corpo da mais linda mulher que ele já havia visto – que ele já havia amado.
            No outro dia, ao fim do enterro, ao ver o túmulo ser fechado, ele se desesperou. Começou a chorar e a gritar. Saiu correndo em direção à casa deles. Alguns de seus familiares e amigos o seguiram para evitar que ele fizesse alguma bobagem. Contudo, o seu desespero e sua raiva lhe deram força para correr mais rápido do que pudessem alcançá-lo. Ele queria estar só.
            Os que o seguiram chegaram à casa alguns minutos depois dele. A porta estava aberta. Tudo o que ouviram foi um grito desesperado de dor. Vinha do quarto. Eles correram até lá e o viram. Ele tinha um vestido dela nos braços e as mãos ensanguentadas. No seu rosto escorria – como lágrimas – o sangue que saía dos seus olhos. Era melhor viver nas ilusões da escuridão do que enxergar o mundo real.

Fim

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O Retrato

            Mudara-se para aquela casa há poucos dias. Uma casa antiga, de arquitetura rústica, porém bem construída e bem conservada. Contudo, ele sequer tivera tempo de desfrutá-la. Precisava terminar de organizar as suas coisas.
            Estava separando o que realmente usava daquilo que guardava por razões que ele mesmo desconhecia. Já tinha lhe rendido uma pilha de tranqueiras. 
            Lembrou-se de que havia um porão na casa. Talvez seja melhor guardar essas coisas lá embaixo, ocuparão menos espaço do que aqui em cima, pensou.
            Levantou-se - estava sentado no chão para encaixotar aquilo que levaria para baixo. Foi até a sala de entrada e pegou um molho de chaves que estava na fechadura. Caminhou até a porta do porão. Abriu. Acendeu a luz. Pegou a caixa com as coisas. Desceu.
            O lugar estava quase que completamente vazio, exceto por algo coberto por um pano branco. Ele não sabia o que era aquilo, mas tinha uma certeza: não era dele.
            Abaixou-se e pôs a caixa no chão. Andou até o objeto desconhecido  e puxou lentamente o pano, que escorregou, revelando um quadro. Era a pintura do rosto de uma linda mulher. A dona dos mais lindos olhos que ele jamais havia visto. Olhos que o hipnotizaram, deixaram-no atônito. Por um tempo que ele seria incapaz de contar, apenas contemplou com fascínio o tão belo olhar.
            Depois de um longo período despertou-se de seu transe; recobrou os sentidos. Subiu novamente as escadas. Precisava que terminar de arrumar as coisas. Mas concentra-se de que jeito? Aquela imagem simplesmente não lhe saía da cabeça. Quem era aquela mulher? Se perguntava. O que era aquilo que ele estava sentindo? Parecia loucura...
            Toda aquela explosão de emoções dominara seus pensamentos. Ele parou com tudo o que estava fazendo. Foi até o quarto e se deitou. Precisava refletir um pouco. Ficou lá, de costas na cama, olhando para aquele tento branco e pensando, tentando imaginar quem era ela, ou onde poderia encontrá-la.
            Perdeu-se em seus devaneios e, após alguns instantes, adormeceu. Sonhou... com ela.
            No sonho, a viu – estava tão linda quanto na pintura. Tomou-a pelas mãos e abraçou. Sentiu seu corpo junto ao dela. Tocou aquele rosto de pele macia e deslizou dedos lentamente até que pudesse sentir tão doces lábios. Aproximou sua face da dela e sussurrou algumas palavras em seu ouvido. Fitou-a profundamente nos olhos. O silêncio. Quebrado por um beijo. Um beijo que jamais sairia da sua memória. Um beijo que marcara seu despertar.
            Estava confuso. Tentou adormecer novamente, voltar para aquele sonho. Foi em vão. Então ele desejou vê-la, tocá-la, ou, simplesmente contemplar, frente a frente, aquele fascinante olhar. Mas de que adiantaria? Não passava de um retrato...

Fim

sábado, 14 de agosto de 2010

Melancolia

            Eram dez horas da manhã, ele acabava de acordar. Abriu os olhos ainda sonolento e então observou os poucos raios de sol que adentravam as frestas da janela do quarto. Era um novo dia, trazia novas oportunidades e expectativas, mas, para ele, era somente um sábado como todos os outros.
            Virou-se de lado e viu que estava vazio o lugar de sua mulher. Ela teria, provavelmente, despertado havia algum tempo. Ele se levantou e foi até o banheiro. Não acendeu as luzes, a penumbra era suficiente, ao menos assim ele seria poupado de encarar o seu olhar vazio.
        Lavou o rosto e voltou para o quarto. Desejou estar ali sozinho quanto tempo fosse possível. Estar naquele lugar que seria só seu, onde ele poderia libertar os seus mais obscuros sentimentos. Porém, o silêncio se quebrou com o ranger das dobradiças da porta.
            – Bom dia, meu amor! – disse-lhe a esposa animada e com um belo sorriso nos lábios.
            – Bom dia! – respondeu ele, seco, porém gentil, sorrindo um sorriso amarelo.
            Ele fitou-a nos olhos por alguns instantes. Um olhar tão profundo que poderia penetrar a alma. Então ele aproximou-se dela e a tomou nos braços. Tocou seu rosto ao dela e disse algo que há muito ele não falava:
             Eu te amo!
            Ela sentiu uma chama arder dentro dela, depois sorriu. Ele a beijou. Um beijo como ela jamais havia sentido. Ele tocara os lábios dela como se fosse a última vez que os sentiria junto aos seus.
            Com um olhar frio ele deixou que os seus dedos deslizassem pelo ventre da mulher até que se afastassem dele e atravessou a porta do quarto.
          Ao sair ele foi tocado pelos raios de sol que iluminavam o corredor. Aquilo o incomodara. Ele fechou os olhos e desejou novamente estar no escuro dos seus aposentos, onde ninguém pudesse lhe encontrar. Passou as mãos no rosto para não se perder novamente em pensamentos e desceu até a cozinha. Pegou uma xícara de café e bebeu. Aquele aroma amargo e frio lhe pareceu o mais doce mel.
            Olhou para a varanda e viu o filho. Ele parecia feliz brincando sorridente ao sol. Mas aquela imagem não foi capaz de despertar no homem o menor sentimento. Ele apenas deixou a xícara sobre a mesa e voltou até o quarto. Trocou de roupas e saiu.
            Enquanto andava em direção à porta de saída sua mulher lhe perguntou:
            – O que houve? Aonde você vai?
            – Houve alguns problemas na firma essa semana. Me encarreguei de conferir as contas. Devo me demorar. Portanto, não me espere pro almoço ou sequer pro jantar. Eu como algo na rua.
            Ela só pode ver a imagem dele, de costas, deixando a casa.
            No quintal ele abraçou o filho e beijou-lhe a face. Foi um abraço apertado e um beijo tão doce que fez o menino sorrir.
            – Eu te amo, papai!
            – Também te amo, meu filho!
            Ele foi até a garagem, entrou no carro e saiu. Rodou por horas, sem rumo. Pensou, refletiu, mas não chegou a nenhuma conclusão. Parou num bar, mas não num bar onde costumava ir, num outro qualquer, longe, onde tinha certeza que não veria ninguém conhecido.
            Lá ele entrou e se sentou numa mesa ao fundo, isolada. Não queria falar com ninguém; não queria ver ninguém. Tudo que ele queria era um momento para estar só consigo mesmo. Pediu uma garrafa de uísque e um copo. Ficou lá até terminar a última dose da garrafa. Ao sair pagou pela bebida mais do que ela custava e não deu a mínima quando o dono do recinto tentou lhe falar. Apenas saiu.
            Deixou o carro na porta do estabelecimento e saiu para caminhar. Não sabia para onde ir ou sequer onde queria chegar. Ele apenas andou.
            Vagou por horas até o entardecer. Quando o sol estava quase posto ele viu uma construção. Devia ser um prédio de uns quatorze ou quinze andares.
            Vou subir, pensou ele.
            Lá ele estaria só e de brinde teria uma bela vista. Subiu. Olhou para a cidade, onde começavam a se acender as primeiras luzes. Olhou então para o céu. Tentou falar com seu Deus, mas, como de costume, Ele não lhe respondeu. Ele então pensou naquela vida sem sentido. Começou a sorrir e gargalhar, zombava de tudo que vivera até ali.
            Subiu no parapeito e começou a dançar e rodopiar. Viver não fazia mais diferença, e num passo em falso ele viu seu corpo deslizar no ar.

Fim

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A Morte em Preto e Branco



            Ainda jovem a Morte bateu-lhe à porta. Ele não tinha chegado nem mesmo aos seus trinta anos. Não havia vivido o suficiente. Seria injusto morrer ali. Foi então que teve uma ideia. Fitou a Morte nos olhos – se é que aquilo que o encarava com um olhar cadavérico podia ser chamado de olhos - e propôs:
            – Por que não fazemos um jogo? Se você vencer eu lhe entrego a minha vida, mas se eu vencer você me deixa escolher o dia em que morrerei.
            – Tua vida já está nas minhas mãos – retrucou a Morte. De que me valeria vencer-te?
            – Pois faça então as suas regras, contanto que não me tome agora a vida, eu aceito.
            A Morte, com um estalo de dedos, fez surgir na frente do homem um tabuleiro de xadrez. As peças brancas o tinham como rei; e o rei das peças negras era ela, carregando sua foice, afiada e mortal, que já tomara de muitos as vidas e de muitos mais a vontade de viver.
            Tomou então com suas mãos pútridas as peças dos reis e disse:
            – Cada jogada ocorrerá num período de três meses. Para cada peça minha que tu tirares eu te concederei um ano a mais até a minha próxima jogada. Porém, a cada peça que eu tomar de ti levarei comigo alguém a quem tu amas. No fim, se eu vencer-te, todos os sacrifícios terão sido em vão e tomar-te-ei a vida. Entretanto, se eu perder, te oferecerei aquilo a que todos os mortais mais cobiçam, algo pelo qual muitos deram suas vidas... a imortalidade.
            Fascinado, de súbito, respondeu:
            – Eu aceito.
            A Morte lhe fez um pequeno corte na mão esquerda e selou o contrato com seu próprio sangue. Um contrato que jamais poderia ser quebrado e que declarava o início do jogo.
            Era o turno dele de jogar. Assim ele fez, moveu sua primeira peça. Num piscar de olhos a Morte desapareceu, deixando apenas as seguintes palavras: “Três meses”.
            Ele estava atônito e pasmo, mas, ainda sim, alegre. Jamais perderia aquele jogo. Quantos teriam feito o que ele fez? Ele acabara de enganar a morte. A imortalidade era, para ele, tão certa quanto a Morte era para todos os outros.
            Três meses se passaram e ela voltou. Como um vulto na noite ela surgiu. Fez então a sua primeira jogada.
            Assim se seguiu durante os dois primeiros anos. Parecia estar tudo sob controle. Até que ela fez a sua primeira jogada mortal, tomou-lhe o primeiro peão, e levou junto o pai do seu desafiante.
            Agora ele estava confuso. Não sabia o que fazer. Não havia pensado naquelas conseqüências. Três meses não eram o suficiente para ele pensar em uma solução.    Contudo, definitivamente, ele não tinha como voltar atrás, havia selado o contrato com seu próprio sangue. Recompôs-se e reformulou sua estratégia. Só havia um jeito de ganhar tempo. Após três meses fez seu ataque. Teria agora um ano até a próxima jogada de sua rival.
            Ao término do último dia do décimo segundo mês ela voltou. Ele já tinha certeza do que ia acontecer. Sua mãe estava doente. Certamente a jogada dela já estava programada. Ele estava certo, perdeu a segunda peça e derramou lágrimas sobre o túmulo de sua mãe.
            Mais três meses se passaram e era a vez dele jogar. Numa jogada desesperada ele tentou ganhar mais um ano. O fez. Tomou da Morte mais uma peça.
            Nesse meio tempo, foi surpreendido com uma notícia que jamais poderia esperar, sua esposa estava grávida. Ele não contava com aquilo. Essa notícia o deixou ainda mais angustiado. Poderia perder seu próprio filho, sangue do seu próprio sangue.
            Ele estava aflito, cada dia que passava era a contagem regressiva para mais uma jogada dela. Mas ela não lhe tomaria outra peça dessa vez, seria insensato. Ela estava montando sua estratégia para pegá-lo, tomar-lhe peças seria atrasar o próprio jogo. Então ele se acalmou. Ela voltaria, jogaria e ele tomaria dela mais uma peça qualquer e ganharia mais tempo. Dois anos e três meses seriam tempo suficiente para pensar em uma solução.
            Então ao fim de um ano ela veio. Para completo espanto dele ela não seguiu a estratégia. Fez uma jogada completamente absurda apenas para lhe tomar uma peça. Falecia de complicações no parto a esposa.
            A morte não estava jogando para derrubar seu rei. Apenas queria lhe tomar peças e, consequentemente, aqueles a quem ele amava. E o próximo alvo seria, com toda certeza, o seu filho, que acabara de nascer.
            O tempo era curto. Tinha apenas três meses pra decidir o que fazer. De nada adiantaria ganhar mais um ano, pois se ele a deixasse jogar novamente ela lhe tomaria uma outra peça; lhe tomaria outro alguém.
            Durante cada dia desse intervalo ele não conseguiu parar de pensar naquele maldito jogo um segundo sequer. Não dormia e mal conseguia comer. Passava horas e horas com seu filho nos braços imaginando o que estaria por vir.
            Os três meses terminaram. Assim que o relógio marcou meia-noite ela apareceu. Veio com seu sorriso sádico e frio dizendo:
            – Faze tua jogada, meu nobre futuro imortal.
            Ele tinha que fazer a jogada. Naquele instante toda sua vida passou diante dos seus olhos. Se lembrou de todos os momentos que vivera com sua mãe e seu pai. Cada palavra, cada toque, cada beijo, cada segundo que passou junto com sua esposa. Mas o singelo sorriso que esboçara em seu rosto desapareceu quando lhe veio à mente as lembranças de cada funeral. Então lhe veio o rosto do seu filho.
            De que valeria a imortalidade se o preço era estar para o todo só e ver aqueles a quem ele amava perecerem diante dos seus olhos? Ele não queria aquilo. Não queria ter que chorar sobre o túmulo do seu filho – uma criança com toda a vida pela frente – como fizera sobre os túmulos do pai, da mãe e da amada esposa.
            Os seus olhos se encheram de lágrimas e medo. Ele tomou o rei branco nas mãos. Apertou-o fortemente e encarou profundamente a morte.
            - Você venceu! - Disse ele.
            Num átimo de coragem ele deitou o seu rei sobre o tabuleiro, entregando o jogo e também a sua própria vida.

Fim